terça-feira, fevereiro 21, 2017

O homem que ressuscitou a saudade de Pavel


Morreu ontem o embaixador, escritor e jornalista José Fernandes Fafe. Os obituários de hoje fazem – muito justamente – referências abundantes ao seu papel de testemunha da experiência cubana, tema igualmente de um artigo que publicarei em livro próximo. Faltou, talvez, a evocação de dois episódios peculiares na vida deste homem que sempre pensou pela sua cabeça. Recupero hoje um, beneficiando de uma entrevista que o embaixador me concedeu em 24 de Novembro de 2016.

No Partido Comunista Português (PCP), o nome de Pavel ainda desperta reacções radicais. Francisco de Paula Oliveira, o Pavel, fora operário no Arsenal da Marinha e, no início dos anos 1930, assumiu a direcção do Partido, na linha do que sucedia noutros países da Europa, onde se valorizavam as fileiras operárias. Proveniente necessariamente da burguesia, o movimento intelectual que se juntava ao PCP – e de onde brotaria Alvaro Cunhal, entre muitos outros – era então secundário na organização do PCP. Pavel era o líder incontestado e legitimado pela Internacional Comunista. O PCP do início dos anos 1930 era claramente o PCP de Bento Gonçalves e de Francisco de Paula Oliveira.
Pavel foi preso em várias ocasiões. Numa delas, evadiu-se do Aljube com ajuda de um enfermeiro. O PCP reorganizara-se entretanto para superar a perda do líder e Cunhal assumiu funções directivas. A fuga de Pavel ofereceu dúvidas – geraram-se suspeitas de que poderia ter sido facilitada pela polícia política, tema que gerou discussões inflamadas durante décadas e que Edmundo Pedro (em Pavel, um Homem Não se Apaga) ou Pacheco Pereira (no primeiro volume de Álvaro Cunhal – Uma Biografia Política) refutam ostensivamente.

Pavel na Fundação Gulbenkian em 1976.
(Arquivo do livro Pavel, um Homem Não se Apaga)
Pária no seu próprio movimento, Pavel combateu em Espanha durante a guerra civil e viveu em Paris até ao início da Segunda Guerra Mundial. Em 1939, abandonou a Europa a caminho do México, assumindo aí a identidade de Antonio Rodríguez. Nas três décadas seguintes, foi fotógrafo, jornalista, pintor e crítico de arte. Conviveu com Diego Rivera, Frida Kahlo, José Clemente Orozco e David Siqueiros, entre muitos outros artistas mexicanos. Foi um dos ideólogos da pintura mural mexicana e é um nome consensual nas Artes centro-americanas. Nunca mais voltou a Portugal durante o Estado Novo.

Pavel com Frida Kahlo.
(Arquivo do livro Pavel, um Homem Não se Apaga)

Em 1976, Mário Soares convidou-o a regressar. Lembrava-se da figura romanesca do revolucionário da sua infância. Em Lisboa, Pavel reencontrou Edmundo Pedro, Francisco Lyon de Castro e Fernando Piteira Santos. A Fundação Gulbenkian convidou-o para uma prelecção em Lisboa sobre pintura mexicana. No seu interessante livro sobre o revolucionário, Edmundo omite um aspecto importante: Pavel não foi recebido de braços abertos em Lisboa. Velhos ressentimentos vieram à tona, tantos anos depois. Foi mesmo censurado por se expressar em castelhano durante as prelecções. É provável que Antonio Rodríguez tenha regressado ao México com mais amargura do que chegara.
Entra em cena a personagem desta narrativa. Em 1977, José Fernandes Fafe é nomeado embaixador na Cidade do México. Conhecia a história de Pavel – contada nos meios socialistas como exemplo de purgas no seio da PCP contra qualquer dissidência ideológica – mas desconhecia a nova identidade do antigo serralheiro do Arsenal. «Um dia, fui visitar um grande mural de Rivera nos arredores da Cidade do México», contou-me o embaixador. «Era uma casa muito bonita e eu a minha mulher circulámos o edifício. Sempre gostámos de arquitectura. A dada altura, saiu de lá um indivíduo mal encarado, que nos interpelou, estranhando a curiosidade. Gerou-se uma discussão até chegar o dono da casa, que se chamava David Alfaro Siqueiros, o pintor. Começámos uma grande conversa e combinámos continuá-la ao pequeno-almoço de outro dia. Ao saber que eu era o embaixador português, Siqueiros acrescentou que convidaria outro português, Antonio Rodríguez. Infelizmente, na ocasião, Siqueiros veio sozinho.»
Ao regressar temporariamente a Lisboa, Fafe contou o episódio a Mário Soares, que lhe explicou a «história de um tipo no México que eu devia conhecer – o Pavel.» Fafe voltou ao posto diplomático decidido a esclarecer o assunto. «Foi pouco depois da revolução portuguesa. O nosso pessoal na embaixada ainda estava muito vinculado ao antigamente. Disseram-me que conheciam a figura, mas que era um inimigo de Portugal, o que não era verdade. Ele era inimigo de Salazar. Lá me deram o número de telefone, contrariados.»
O embaixador telefonou a Rodríguez e, quando a chamada se concretizou, interpelou-o em português: «É o Pavel?»
«Seguiu-se um silêncio até uma voz desconfiada perguntar: “Quem fala?”».
«Lá lhe expliquei que era o embaixador. E começámos uma amizade muito sólida. O Pavel ajudou muito a embaixada portuguesa naquele período, estabelecendo contactos nesses três anos e meio em que estive no México.»
As conversas tornam-se quotidianas na Cidade do México. Pavel readquire o gosto de se exprimir em português. «Ele tinha dito a alguém que Portugal já não lhe interessava, mas, depois do convívio comigo, escreveu um opúsculo muito interessante [no Natal de 1978], que se chama Saudade. Em português, sem erros.» A portugalidade voltava ao de cima.
Nas conversas com o embaixador, Pavel aborda periodicamente a história da sua expulsão do PCP. «Tinha grandes ressentimentos contra o Partido Comunista. Não falava muito sobre o assunto, mas, quando falava, comentava o assunto com acrimónia. Contou-me o que se passara e fora trágico.»
Em artigo publicado no Público em 19 de Dezembro de 1992 [tolamente remetido para as Cartas ao Director, motivando um protesto do embaixador na Alta Autoridade para a Comunicação Social], Fafe lembrou mais alguns pormenores. Recordou que, numa entrevista gravada que lhe fizera em 1988, Pavel fora claro: «Nunca pensei que Cunhal pudesse vir a ser secretário-geral (…) Ele não tinha raízes operárias e nós éramos muito sectários a esse respeito. Víamos esses camaradas com certo desprezo e também, claro, com temor.»

O artigo de José Fernandes no Público, 19 de Dezembro de 1992

Foi talvez a vingança fria de Pavel. Descreveu Cunhal como «um rapaz com talento». Apenas isso. As horas de entrevista gravadas na década de 1980 permanecem por publicar. Nelas, o velho revolucionário demonstrava-se menos categórico do que Edmundo Pedro o vira em 1976: «Creio que seria nessa altura um social-democrata. Nunca mo disse nesses termos, mas adivinho-o pelas suas opiniões e tomadas de posições», disse-me José Fernandes Fafe.
Francisco de Paula Oliveira, o Pavel, voltou a Lisboa em 1988, a convite de José Fernandes Fafe, 50 anos depois da sua fuga do Aljube. Fafe foi objectivamente um dos homens que lutou para que Pavel recebesse «hoje o protagonismo e a importância que lhe foram negados. O reconhecimento que tarda. O reconhecimento que se impõe» – foram as palavras que o embaixador utilizou no final do seu artigo no Público. As mesmas que me repetiu numa tarde fria de Novembro de 2016.

Ontem, faleceu um homem com uma história fascinante de vida. Deixo aqui a minha vénia ao embaixador Fafe, com um abraço amigo ao José Paulo Fernandes Fafe.

O interessante livro de Edmundo Pedro, publicado pela Parsifal, em 2014.

domingo, fevereiro 12, 2017

A acutilância do Pina

Sobre a controvérsia provocada pelas memórias do ex-Presidente da República, ocorre-me uma passagem do Manuel António Pina, então publicada no Jornal de Notícias: «A verdade é que um verso (…) ou um poema têm certamente mais e mais óbvias hipóteses de durar do que um primeiro-ministro ou um presidente! (…) Daqui a 50 ou 100 anos, o mais que algum rato de universidade conseguirá provavelmente dizer sobre Cavaco Silva, depois de ter vasculhado em todos os arquivos, é que foi um primeiro-ministro do tempo de Eugénio de Andrade.»

É só isto! Bom dia.

terça-feira, janeiro 17, 2017

Alves dos Reis... antes de Alves dos Reis



Aquela legenda que volta para nos assombrar.
Revista ABC, Julho de 1925.
Três meses antes do escândalo final do Banco Angola e Metrópole...

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Como Vasco Granja desvendou parcialmente um mistério de Blake e Mortimer

Dedicatória de Edgard Jacobs a Vasco Granja, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)
De férias nos Açores, destino turístico recém-descoberto pela burguesia europeia após os horrores da Segunda Guerra Mundial, o professor Mortimer faz uma descoberta espantosa: no foro do Diabo, um pequeno golfo na zona das Sete Cidades (ilha de São Miguel), detecta um metal desconhecido com propriedades radioactivas invulgares. Convoca de imediato o seu amigo, o capitão Blake, e juntos, penetrando numa caverna vulcânica micaelense, desvendarão o segredo da civilização Atlântida, resguardada na tranquilidade dos Açores – desfecho, aliás, que uma legião de maluquinhos continua a tentar impingir-me semanalmente na revista onde trabalho.
O enredo, publicado em pranchas semanais a partir de Abril de 1957 (e mais tarde reunido em álbum, O Enigma da Atlântida), constitui um dos êxitos mais celebrados dos aventureiros Blake e Mortimer, criações de banda desenhada do belga Edgard Pierre Jacobs (1904-1987). Mas onde se inspirou Jacobs para um dos seus mais populares guiões?

Uma das vinhetas de O Enigma da Atlântida. As duas lagoas das Sete Cidades.
(Público/ASA)
Em Outubro de 1972, o mais extraordinário divulgador de banda desenhada entre nós, Vasco Granja (1925-2009), entrevistou-o para a revista Tintin. De feitio reservado, refugiado na sua propriedade em Lasne en Brabant, Jacobs não concedia muitas entrevistas – menos ainda para os representantes de um país sem grande tradição no género e de que conhecia apenas (por admissão própria) o extinto Cavaleiro Andante e o desenhador Fernando Bento (que aliás elogiou: «Ficava-se com a ideia de que conhecia o vestuário de outras eras do povo português.»)
Como bom repórter, Granja torturou o responsável de Relações Públicas da revista Tintin, Jean Paul Vander Elst, e obteve o exclusivo. Antes, já pedira também a intermediação de Hergé, velho mestre de quem Jacobs fora assistente em Bruxelas. Hergé considerava Jacobs um misto entre Mortimer e o seu capitão Haddock. 
Há uma certa aura quando Jacobs entra na sala onde Granja já o espera, «dando a impressão de estar numa sala de espectáculos. (…) É uma autêntica encenação teatral (não esquecer que o grande desenhador teve uma brilhante carreira como intérprete lírico)». Repórter minucioso, Granja regista o aparato da entrada cénica, «como se aguardássemos as três pancadas de Molière».

Parte 7 da entrevista, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)

A entrevista, partida em sete capítulos (publicados entre a série XI e XII da revista), é um jogo de xadrez. Granja elogia Jacobs e quer extrair dele os segredos criativos; Jacobs contra-interroga, numa espécie de exame de aptidão daquele homem peculiar, de óculos de aros largos, proveniente do país com «um povo corajoso», «pequenos mosaicos de cores diferentes [azulejos]», mas pouco mais. A certo momento, num jogo de espelhos peculiar, é o belga quem faz perguntas sobre o estilo de banda desenhada mais comum em Portugal, as dificuldades de adaptação de enredos e peripécias culturais francófonas ou até as preferências de Granja sobre o processo criativo e a hierarquização de funções entre desenhador e guionista.
O Enigma da Atlântida aflora à conversa. O guião inicialmente previsto para a aventura incluía discos voadores, mas outro ilustrador com colaboração prevista para o mesmo número da revista já os integrara na sua narrativa e Jacobs, cavalheirescamente, cedeu. O belga interessou-se então pela Atlântida, revisitando o mito que, desde o século XVIII, sugere que o arquipélago açoriano seria o destino final desta civilização perdida.
«Oh, sabe lá, tive tanta dificuldade em reunir documentação para essa história», contou. «Hoje, teria sido mais fácil.» Jacobs gabava-se de um processo documental único entre os seus pares e a história nos Açores não fugiu à regra. São conhecidas várias rábulas sobre a obsessão do belga com os mais ínfimos pormenores que reproduzia depois nas pranchas. Nos Açores, ficou sempre a dúvida sobre se Edgar Jacobs efectivamente visitou o arquipélago, pois os seus blocos de notas e memórias são omissos relativamente a essa questão, mas as pranchas que decorrem à superfície das Sete Cidades são particularmente minuciosas e correctas.
Granja questionava. Jacobs desviava a conversa: «Posso oferecer-lhe alguma coisa para beber? Não tenho vinho do Porto, mas talvez aceite um uísque.»
Mais à frente, volta-se ao tema. Infelizmente, sem certezas.
Interpretando literalmente a resposta final de Edgard Jacobs, fica a ideia de que a visita do desenhador a São Miguel foi posterior à publicação do álbum. «Eu não tinha conseguido obter a indispensável documentação acerca dos Açores quando andava a preparar O Enigma da Atlântida. A cratera das Furnas [Jacobs referia-se às Sete Cidades] deixou-me uma profunda impressão. Na água do lago, pode[m] observar-se duas cores diferentes: uma azul e outra verde, o que é bastante espantoso.» E foi tudo!
Vasco Granja em imagem do Gato Alfarrabista
O homem que se gabava de ter sido o primeiro na Bélgica «a tentar fazer em banda desenhada qualquer coisa de sólido em vez de imaginar cenários fantasistas como no teatro», não chegou a esclarecer como se documentou para reproduzir fielmente a Lagoa Azul e a Lagoa Verde.
     Vários biógrafos e fãs de Jacobs não acreditam que o belga tenha de facto visitado os Açores no início da década de 1950 para se documentar, mas, em São Miguel, a sua figura ainda é lembrada. O vulcanólogo Victor Hugo Forjaz conta que, nas memórias da ilha micaelense, ainda há quem se lembre do belga «numa descida juliovérnica que se realizou na Povoação e terminou numa caverna sem saída», seguida de uma visita às Sete Cidades. A imaginação do desenhador e guionista faria o resto, estabelecendo ligações subterrâneas entre o território. «Terá então sido guiado pelo jornalista, director de uma loja de turismo e radialista Silva Junior (1912-1995)», acrescenta o cientista, que homenageia este mês a aventura de Blake e Mortimer que percorreu mundo e celebrizou as Sete Cidades.

Dedicatória de Edgard Jacobs a Vasco Granja, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)
Nunca mergulhei na Lagoa das Sete Cidades, objecto do excelente Vulcão das Sete Cidades – Um Guia, obra agora publicada nos Açores com coordenação de Victor Hugo Forjaz e do Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores e apoio da Câmara Municipal de Ponta Delgada.
Porém, ontem, em conversa amena com este amigo, sábio da vulcanologia, memória viva dos Açores e… testemunha bem humorada de erupções reais, fictícias e imaginadas-para-ministro-ver, veio à baila esta saga de Blake e Mortimer passada em São Miguel. Rimo-nos com a recordação do final da aventura de Jacobs. Na banda desenhada, Jacobs abre a Lagoa para deixar passar foguetões em direcção ao espaço, antes de a voltar a selar com a configuração de sempre, como se nada tivesse acontecido.

Na impossibilidade (para já) de comprovar que Edgard Jacobs visitou de facto os Açores antes de desenhar O Enigma da Atlântida, resta-me sugerir a leitura deste novo guia sobre um dos monumentos naturais mais espantosos de São Miguel. Com menos ficção e mais ciência, com menos atlantes e mais açorianos, é uma obra fascinante e há muito necessária.

Nota final: este artigo é devedor da sabedoria e partilha de informação do blogue Nerdenthal, que compilou uma valiosa lista de textos de Vasco Granja sobre banda desenhada, o amor da sua vida.