sábado, novembro 24, 2012

Os 98 Esquecidos da Talidomida



Parte 1 de 2



Parte 2 de 2

Através deste documentário de John Pilger, exibido em 1974 na televisão do Reino Unido (e legendado por mim com a imperícia própria dos amadores), torna-se palpável uma dramática modificação no tom, enquadramento e abordagem da informação televisiva sobre saúde, em curso nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha desde o final da década de 1960.

A PERDA DA INOCÊNCIA DA MEDICINA
Aproximada abusivamente das ciências exactas, a medicina tornou-se criticável, como de resto outras estruturas da vida pública, como o governo, as forças armadas ou a escola. Os actos dos seus agentes são expostos e sujeitos ao escrutínio público, as suas motivações e independência questionadas, e a sua prática – até então limitada apenas pela auto-regulação – extravasa dos limites e torna-se politizada. Os temas da medicina nas notícias são, a partir de agora, expressos numa lógica política, que dá voz a agentes partidários favoráveis ou desfavoráveis a cada alteração proposta, ao mesmo tempo que outras esferas de intervenção, como o poder judicial, a incluem na sua área de intervenção.
Pilger demonstra neste documentário sobre os efeitos adversos da ingestão de talidomida por grávidas que as infra-estruturas dedicadas à preservação da saúde pública não são infalíveis, nem incorruptíveis. Com isso, materializa, de certa forma, uma perda da inocência da medicina aos olhos da sociedade.

AS CONSEQUÊNCIAS DE LONGO PRAZO
Na medicina, como na indústria, as consequências de cada acto não são imediatamente palpáveis. A dificuldade de apreensão desta limitação será porventura a maior lacuna da ficção televisiva dedicada aos temas médicos. As soluções não estão sempre ao virar da esquina, nem a total consequência de uma causa é visível ao fim de alguns minutos de hospitalização.
Foram necessários vários anos até o establishment médico-científico comprovar que a ingestão de comprimidos de talidomida por grávidas nos primeiros meses de gestão tinha forte probabilidade de provocar deformações nos recém-nascidos. Ao empirismo emocionado dos primeiros relatos (e imediata negação por parte dos fabricantes), seguiu-se uma maratona de testes laboratoriais até a dimensão completa da tragédia ser testada e validada. É importante recordarmos o caso da talidomida no Reino Unido quando debatemos as consequências de média ou longa duração do acto médico. Sobretudo porque o desfecho de casos como este decorre já em pleno silêncio jornalístico, numa altura em que os órgãos de comunicação social migraram para outros temas da agenda.

A ABORDAGEM DO CONSUMIDOR
Anne Karpf (1988), na sua obra de referência sobre a evolução do discurso sobre medicina e saúde nos meios de comunicação, esforçou-se por definir os anos 1970 como período de transição entre dois tipos de discurso. A abordagem médica foi dominante até então (e é argumentável que permanece em vigor na actualidade), traduzida num discurso centrado nos avanços da medicina, na adaptação de tecnologia à prática médica, no reconhecimento da especialização dos profissionais e na sua caracterização como interlocutores únicos para discutir os problemas da saúde pública. Ora, a essa abordagem dominante impôs-se um segundo registo discursivo: a abordagem do consumidor.
A informação televisiva produzida sob esse paradigma dirige-se, não ao paciente, mas sim ao utente de cuidados de saúde. Informa-o sobre os melhores e os piores serviços, dá-lhe informação (a expressão inglesa "empower" é particularmente feliz). Refuta a autoridade absoluta do médico, contrapondo que ninguém entende melhor o seu corpo do que o próprio indivíduo. É neste registo que o documentário de Pilger se insere, explicando ao público os erros do establishment, confirmando a negligência hospitalar, sublinhando o desinteresse ou mesmo ostracismo a que os doentes e os seus familiares foram votados quando procuravam informar-se.
A relação médico-paciente é assim reestruturada nesta abordagem, através de um discurso emancipatório que recusa o estatuto de "vacas sagradas" conferido pela sociedade aos seus profissionais mais especializados e atribui ao utente/consumidor o direito de conhecer todos os actos ou medidas que afectem a sua saúde. 

O AUTOR
À medida que vamos avançando na vida, vamos diminuindo o nosso número de heróis. John Pilger é um dos meus. Relatou vários conflitos armados e tem uma visão do mundo com a qual concordo em grande medida. Jornalista independente, com um currículo inatacável e uma prática de reportagem sem compromissos, que lhe motiva ataques frequentes na Austrália, no Reino Unido e nos Estados Unidos, Pilger fica muito ligado, na realidade lusófona, ao seu envolvimento no processo de Timor. 
O seu documentário de 1993 "Death of Nation: The Timor Conspiracy" não é suficientemente reconhecido em Portugal, mas foi um importante rastilho para informar a opinião pública britânica sobre a opressão indonésia sobre Timor e a passividade australiana face à ocupação. Em Portugal, colocamos ênfase (talvez excessivo) sobre o peso das notícias sobre o massacre de Santa Cruz no reconhecimento internacional da luta timorense. Creio, com sinceridade, que nada teria sido igual sem este trabalho de John Pilger.

Ficha técnica
"Talidomida, os 98 Que Esquecemos".
Por John Pilger, 1974, Reino Unido.

quarta-feira, novembro 21, 2012

A Guerra das Vacinas



                          Parte 1 de 4.

                            Parte 2 de 4.

                             Parte 3 de 4.

                             Parte 4 de 4.


Legendado por mim (com falhas, aviso logo à cabeça), no âmbito da cadeira de Jornalismo de Saúde que lecciono na Universidade Católica Portuguesa, este documentário do Frontline, programa de referência da PBS, marca um ponto importante no debate público sobre a aceitação – ou questionamento – das autoridades de saúde na era da Internet.

A FORMAÇÃO DE OPINIÃO NA ERA DA INTERNET
O tema das vacinas é particularmente pertinente, pois integra uma decisão de cada sujeito (há Estados americanos nos quais a vacinação das crianças é livre no quadro de uma objecção de consciência discutível e perigosa) face à informação a que tem acesso. Nessa perspectiva, é penoso verificar, como refere um dos epidemiologistas, que para uma larga fatia da população, a informação veiculada no Youtube ou noutros serviços de partilha social de informação, adquire mais credibilidade do que uma tomada de posição do Centro de Controlo de Doenças. Quando essa aquisição de informação influencia uma decisão tão séria como a da vacinação, torna-se um problema de saúde pública.
Admitindo que é impossível travar a disseminação de informação falsa, incompleta, distorcida ou não validada na rede, resta aos agentes de saúde pública um salto de fé, tornando-se visíveis no ciber-espaço, actuando ali, desmentindo rumores, colocando online conteúdos validados. É uma batalha de desfecho incerto, mas que tem de ser travada, mesmo reconhecendo o carácter aliciante de uma boa teoria da conspiração!
A Internet apresenta outro problema: um conteúdo falso ou impreciso divulgado num meio de comunicação tradicional esgota-se no dia em causa. Deita-se fora o jornal, esquece-se o noticiário de rádio ou de televisão. O impacte é reduzido ao longo do tempo. Na Internet, porém, ele mantém-se, pairando no ciber-espaço. E pode bem ser o primeiro material de consulta para um pai em busca de informação sobre vacinas. 

A PROLIFERAÇÃO DE BOATOS
A ciência lida mal com os media, sobretudo quando as rotinas de produção de informação entram em colisão com os prazos e metodologias próprios da nossa ciência experimental. Neste campo, os acontecimentos provocados por erros médicos – ou melhor dizendo, pela difusão jornalística de alegados erros médicos – colocam novas dificuldades aos agentes de saúde.
O incidente relacionado com a cheerleader dos Washington Redskin, que alimentou notícias sobre um efeito inesperado e inédito de uma vacina, e a difusão espectacular dessa informação através das redes sociais e de alguns meios de comunicação, é um bom estudo de caso sobre a fragilidade dos mecanismos de validação nas redacções, que aceitam como plausível qualquer boato infundado, desde que ele constitua "boa televisão".
Em teoria, as agências de saúde pública deveriam ser mais ágeis na desmontagem destes processos, mas elas lidam com um problema: é de todo improvável que um rumor daquela natureza tenha validade, mas é preciso investigá-lo, recuperar o historial clínico, monitorizar todos os passos do doentes desde a toma da vacina ao dia do incidente. E este processo demora mais do que os media estão dispostos a esperar.
Não é expectável, porém, que a relação de forças se altere. É preferível produzir "ciência válida" nos timings possíveis a apressar o processo de (in)validação e cometer erros científicos, que deitariam por terra a credibilidade das instituições.  

A CORRELAÇÃO PERIGOSA
Dois fenómenos acontecem num encadeamento temporal: uma criança vacina-se e semanas depois desenvolve os primeiros sintomas de autismo. Em ciência, correlação não significa necessariamente uma relação causal. Para os pais de uma criança, essa correlação torna óbvio que a doença resultou da vacinação e esse é mais um exemplo das diferentes rotinas organizacionais que regem as profissões. Em jornalismo, um incidente dessa natureza adquire valores-notícia suficientes para difusão de uma notícia, mesmo que ela seja cautelosa na abordagem do tema; em epidemiologia, um incidente destes desperta a necessidade de condução de estudos que sustentem ou desmintam a relação apontada. O problema? Quando os estudos são publicados, mais de doze meses depois, o tema já foi noticiado e integrado no quotidiano e já se sentem efeitos das decisões tomadas por cada indivíduo relativamente à sua adesão à vacinação.
O processo é agravado porque o papel de intermediação dos media tem vindo a desaparecer.
Na Internet, e particularmente nas redes sociais, publica-se sem cessar e sem pensar, e cada utilizador depende apenas do seu bom senso (ou falta dele) e não de critérios deontológicos profissionais.
O cenário só se altera com educação científica em todas as idades.
Da próxima vez que ouvir alguém discutir o peso insuficiente das disciplinas de ciência nos currículos académicos, já sabe: é aí que se começa a (de)formar os futuros utilizadores do espaço público. E no campo da Saúde há muito por fazer: basta dizer que, nas categorias do Youtube, a Ciência é agregada à Educação, ao passo que a Saúde forma uma categoria com a Culinária!

O RISCO ZERO
Qualificada ou leiga em saúde pública, qualquer pessoa pretende tomar decisões médicas de "risco zero", que não impliquem qualquer consequência imprevista, e lhe permitam beneficiar de todas as vantagens anunciadas num programa de vacinação. Simplesmente, não existe risco zero em medicina, muito menos quando integramos uma nova vacina num plano nacional de combate às infecções.
Do lado dos gestores de saúde público, é forçoso comunicar as várias cadeias de risco à população, tratando-a como um grupo de adultos responsáveis e abordando o risco aceitável, que constitui uma pequena reacção (um inchaço, um pico de febre), o risco improvável (uma reacção alérgica do sujeito a um componente da vacina, que produz consequências aborrecidas mas tratáveis) e o risco estatisticamente invisível, mas sempre existente (uma reacção imprevista e com consequências de longo prazo ou irremediáveis). Estes três cenários têm de estar em cima da mesa.
Do ponto de vista dos utentes, importa desconstruir a noção de que estas opções são tomadas exclusivamente à escala individual. Não são: a decisão de não vacinar uma criança afecta a própria, a sua família e toda a comunidade em redor, diminuindo a imunidade colectiva e aumentando o risco (esse, sim, palpável) de um surto epidémico de uma doença infecciosa há muito controlada.

O LIMITE DA OPÇÃO INDIVIDUAL
Vale a pena por fim discutir o limite da opção individual de cada pai ao não vacinar o seu filho. Essa decisão não é exclusivamente individual, nem os direitos do pai são ilimitados. As decisões que contrariam o bem-estar da criança devem ser refutadas, da mesma forma que ninguém pode garantir que uma criança não imunizada não infectará outras, agravando epidemias, como temos visto em focos regulares de sarampo pelo mundo fora.
Em suma, "A Guerra das Vacinas" é um documentário relevante e muitíssimo bem conduzido, na melhor tradição do jornalismo da PBS.
E enquanto espreitar estes 52 minutos de filme, lembre-se que, em Portugal, no ano de 2011, cerca de três mil crianças não foram vacinadas por opção parental.

Ficha técnica:
Frontline. The Vaccine War.
Exibido na PBS em 27/04/2010
Produzido por Jon Palfreman
Co-produzido por Kate McMahon
Escrito e realizado por Jon Palfreman

sexta-feira, novembro 16, 2012

A SIDA e o erro do século



O erro jornalístico tem, por norma, um defeito adicional por comparação com os erros de outras categorias profissionais. Segundo um velho aforismo bem conhecido nas redacções, o médico enterra os seus erros e o advogado enforca-os, mas o jornalista publica-os na primeira página, visíveis para toda a população, expostos para sempre.
Vem isto a propósito de mais um aniversário que amanhã (dia 17) se cumpre sobre um dos mais terríveis erros da imprensa ocidental, pelo menos no que à comunicação de risco diz respeito.
A 17 de Novembro de 1989, o “The Sun”, jornal britânico do império Murdock, dedicou ampla cobertura ao tema da SIDA. Na sua página 2, o jornal escrevia: “Sexo Heterossexual Não lhe Pode Causar Sida”. A conclusão, terrivelmente errada mesmo para os padrões de conhecimento da epidemia à época, baseava-se na leitura enviesada de um estudo encomendado pelo Ministério Britânico da Saúde, que apurara que, entre 2.372 indivíduos infectados com o vírus, apenas 1 não pertencia aos principais grupos de risco – toxicodependentes e homossexuais.
Em face desta anomalia estatística (uma taxa de 0,04%), contrariada por todos os estudos da época e posteriormente desmentida por todos os envolvidos, o jornal entendeu escrever em editorial associado ao tratamento noticioso do tema: “SIDA. OS FACTOS, NÃO A FICÇÃO. A verdade pode, por fim, ser contada. A SIDA, a doença assassina, só pode ser contraída por homossexuais, bissexuais, drogados ou qualquer pessoa que tenha recebido uma transfusão sanguínea. ESQUEÇA os avisos televisivos. ESQUEÇA as campanhas institucionais. ESQUEÇA os intermináveis e infinitos documentários televisivos e ESQUEÇA a ideia de que os heterossexuais comuns podem ser infectados pela Sida. Não podem… O risco de infecção por SIDA, se for heterossexual, é ‘estatisticamente invisível’. Por outras palavras, impossível. Por fim, sabemos – tudo o resto é apenas propaganda homossexual. E deve ser tratado de acordo com isso.”
A abordagem jornalística mereceu contestação desde o primeiro dia. O próprio político que sugerira o menor grau da ameaça (Lord Kilbracken) solicitou a correcção da informação, até porque o estudo em causa ignorara todos os relatórios sobre infecção por VIH, concentrando-se apenas na SIDA. Condenado pela entidade reguladora dos media na Grã-Bretanha, o jornal publicou por fim um desmentido. Mas alojou-o na página 28, contrariado, procurando escapar ao aforismo que define a profissão.
Por constrangimentos organizacionais, por quebras na cadeia de confirmação da informação ou por má fé, os media publicam regularmente informação incorrecta. Faz parte do jogo. Neste caso, porém, o jornal estabeleceu um precedente (quase) inédito: publicou informação incorrecta, de má fé, colocando ao mesmo tempo em risco a vida dos seus leitores.
17 de Novembro de 1989 deve por isso ser lembrado. Todos os anos.

Cf. também: Correia, João Carlos (2006), "O Relato Jornalístico e a Doença: Entre a Ciência e a Vida Quotidiana", disponível aqui.

quinta-feira, novembro 15, 2012

terça-feira, novembro 13, 2012

Susan Sontag e os objectos de museu

Depois de ter passado umas horas a ouvir histórias escabrosas sobre restauros defeituosos de algumas das nossas mais icónicas obras de arte, dei por mim a recordar mentalmente um texto de Susan Sontag que me marcou. Reencontrei-o por sugestão do Museu Geológico de Portugal. Trata-se de "O Amante do Vulcão" (1992) e da memória do acto de vandalismo de 1845 que teve como alvo o vaso Portland, do século I d.C.

Aqui o deixo, com uma vénia ao professor Miguel Ramalho e a Ricardo Leal Gomes, e com dúvidas profundas sobre a "originalidade" dos objectos que nos são dados a ver nas salas de museu:

"A meio de uma tarde de Fevereiro de 1845, um rapaz de dezanove anos entrou no Museu Britânico, dirigiu-se directamente à sala sem vigilância onde se encontrava uma vitrina de vidro com o vaso Portland, uma das riquezas mais valiosas e célebres do museu desde que, em 1810, o quarto duque de Portland aí o deixara por empréstimo. Pegou num objecto mais tarde descrito como "uma curiosidade escultórica" e desatou a bater no vaso desalmadamente. O vaso rompeu-se, quebrou-se, estilhaçou-se, ficou espatifado. O rapaz pôs-se a assobiar baixinho e sentou-se em frente do monte de cacos a admirar a sua obra. Os guardas acorreram precipitadamente. (…)
Isto é um crime que não se comete mais do que uma vez. Esta forma de obsessão por um objecto, a obsessão de o destruir é monogâmica. Sabemos que o Sr. *** não voltará ao Museu Britânico para dar uma paulada na Pedra de Roseta ou nos mármores Elgin – nem é provável que qualquer outro o faça, pois, ao que parece, não há mais do que dez ou quinze obras de arte em todo o mundo susceptíveis de criar tais obsessões (segundo uma estimativa recente, provavelmente por defeito, do superintendente das Belas-Artes de Florença, cidade que tem a honra de albergar duas delas, a estátua de Miguel Ângelo e o Nascimento de Vénus, de Botticelli). O vaso Portland não consta da lista.
Ninguém pode reparar o Sr. ***, que foi condenado pelo juiz a pagar uma multa de três libras ou a dois meses de trabalhos forçados. Não tendo mais que nove pence no bolso, foi preso e libertado poucos dias depois quando alguém pagou a multa (o benfeitor, segundo o o boato, foi um aristocrata clemente, nada mais do que o duque de Portland, que declarou não querer passar por perseguidor de um moço que podia bem ser louco). Mas o vaso, reduzido a cento e oitenta e nove bocados em cima de uma mesa nas caves do museu, a serem examinados com lentes e pinças, foi reconstituído em sete meses por um intrépido e hábil empregado, mais o seu assistente.
Será que uma coisa despedaçada, e depois habilmente reparada, se pode considerar a mesma, a mesma que era antes? Pode, para os olhos, pode, se não se olhar demasiado perto. Não, para a mente."

domingo, novembro 11, 2012

A deficiência nas notícias





Por motivos de força maior, tive de faltar ao workshop Media e Deficiência, preparado pelo Gabinete para os Meios de Comunicação Social, e no qual já confirmara a minha presença. Na meia hora que me cabia, pretendia discutir a hegemonia daquilo que Anne Karpf (1988) chamou a abordagem médica na difusão de informação sobre deficiência física, motora, sensorial ou mental.
Tinha em mente a proposta da Organização Mundial de Saúde de concepção da deficiência como “incapacidade” ou “limitação”, apelo que aparentemente não chegou ainda aos meios de comunicação. E, no entanto, a alteração semântica não é cosmética: se aceitarmos a noção de incapacidade, somos capazes de assimilar que a deficiência é mais abrangente do que pensamos. Em última instância, é algo que nos bate à porta na fase derradeira da vida, quando a audição, a visão, a mobilidade ou a cognição já fraquejam e produzem limitações no nosso estilo de vida.
Pretendia mostrar este excerto de cinco minutos da série “Make Me Superhuman”, produzida pelo National Geographic Channel e dedicada à biónica. É um documentário enternecedor – começo por aí. Baseia-se na força de vontade e resiliência de quem foi afectado por factores de incapacidade e se esforça por reduzir ao mínimo o transtorno provocado pela limitação das suas funções. Procurou inovações tecnológicas em fase de implementação, fornecendo esperança renovada às pessoas com deficiências. Mas registou também fraquezas que suscitam uma reflexão.
Tal como Karpf notou, este tipo de peça informativa, baseada na abordagem médica, tende a construir socialmente a deficiência ora como um acidente cruel da natureza (um erro genético), ora do destino (um acidente). Convida a audiência a aplaudir a pessoa com deficiência ou a expressar pena pelas suas agruras, mas o verbo operativo é transformar. Desse ponto de vista, a medicina é apresentada como a ferramenta única, que oferece possibilidade de cura, reabilitação ou melhoria da incapacidade, raramente sublinhando a necessidade de aceitação da condição debilitada – pelos próprios e pelos que os rodeiam, uma vez que a limitação se acentua quando as barreiras físicas ou sensoriais se acumulam.
Infelizmente, ao vertermos a deficiência para as notícias, subrepresentamos horrivelmente os grupos etários e sociais mais afectados. Cerca de 8% dos portugueses sofrem pelo menos um tipo de incapacidade; a maioria, dizem as organizações de apoio às pessoas com deficiência, são idosos. E, no entanto, as peças noticiosas (já para não falar na ficção de que Karpf também se ocupa) raramente os representam, preferindo os rostos e corpos jovens como ícones do tema. As próprias deficiências não são tratadas de forma equitativa. Se já começam a ser comuns as notícias sobre deficiência física, motora ou sensorial, a deficiência mental continua a ser um tabu, um tema escondido, ao qual raramente se recorre. *
Era, no fundo, esta reflexão que eu pretendia levar a discussão na passada quinta-feira, para além de mostrar um processo típico de selecção, produção e difusão de um tema na revista – a biónica, tema de capa da edição de Fevereiro de 2010. Terá de ficar para outra vez.

* Faço a ressalva para a importante mensagem veiculada pelos Prémios de Jornalismo Sobre Saúde Mental. A reportagem da RTP, “Mentes Inquietas”, da autoria de Isabel Pereira Santos e dedicada à doença mental, foi justamente premiada este ano, dando corpo, espera-se, a uma tendência de vulgarização deste objecto de trabalho nas notícias e reportagens jornalísticas.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Chocolates, BD e uma bela ideia

Público
Diário de Notícias
Derniere Heure
 À Bélgica, atribui-se com frequência a paternidade sobre as melhores bandas desenhadas do mundo e sobre os chocolates mais vistosos do planeta. Hoje, quarta-feira, é legítimo colar-se-lhe mais um rótulo: o de autora de uma das mais sofisticadas ideias de sempre do jornalismo impresso.
Uma eleição é um acontecimento difícil de gerir num jornal, particularmente num país estrangeiro. Gera demasiada informação imprevisível e impede a rotinização tão necessária nas redacções. O próprio lead fica em suspenso até se conhecer o nome do candidato vencedor.
Quando o processo eleitoral decorre num fuso horário distante do português, como sucedeu agora com as eleições norte-americanas, as dificuldades multiplicam-se. Há uma hora de fecho, que não se compadece com o desconhecimento dos resultados eleitorais além-fronteiras. Por outras palavras, à meia-noite em Portugal, as urnas estavam a encerrar na costa leste, mas permaneciam em aberto na costa oeste. Era impossível anunciar o nome do vencedor na edição matinal do jornal, mas, por ironia, à hora a que os leitores vão às bancas, já conhecem perfeitamente o desfecho, graças à informação radiofónica, televisiva ou online.
O "Diário de Notícias" e o "Público" resolveram como puderam esta dificuldade. Uns centraram-se no carácter disputado da corrida eleitoral; os outros focaram-se na tarefa que está pela frente do novo presidente americano, qualquer que fosse o seu nome.
Na Bélgica, o "Dernière Heure" superou a dificuldade com brilhantismo. Desenhou a primeira página aqui representada: a pose de um político no palanque da sala de imprensa da Casa Branca e um código QCR por cima do rosto, sugerindo aos leitores que, para obterem informação actualizada sobre o desfecho eleitoral, poderiam usar smart phones e seguir para a página online da publicação.
Como o Paulo Querido já escreveu noutro local, será uma rendição com classe do jornalismo impresso ao electrónico. Mas espero que seja também o reconhecimento implícito de que ao jornal impresso resta um papel: o de contextualização da informação, de digestão, de reflexão. As notícias de última hora, essas, já pertencem às outras plataformas.

domingo, novembro 04, 2012

Obaysch e outros bichos


Imagine-se no século XIX. Não tem televisão, nem cinema, nem praticamente fotografia. A ilustração está reduzida ao círculo académico, e o livro circula com dificuldade. Onde pode aprender sobre a diversidade animal das latitudes distantes?
Pensei nisto hoje ao visitar o Aquário Vasco da Gama, em Lisboa, com o meu filho.
Submersos por uma quantidade inédita de informação, que permite às crianças de três anos distinguirem famílias de dinossauros com mais certezas do que um paleontólogo da década de 1920, temos tendência a esquecer o papel dos gabinetes de curiosidades, dos museus e jardins zoológicos do final do século XIX. Eles eram então as únicas fontes de informação visual palpável sobre animais exóticos, que hoje conhecemos abundantemente.
Pensemos em Obaysch, o primeiro hipopótamo transportado para um zoológico europeu (aqui satirizado numa caricatura da época). 

A sua captura resultou de um pedido especial da Sociedade Zoológica de Londres ao cônsul britânico no Egipto, em 1849. Num período de grande rivalidade com a ciência francesa, alemã e belga, os ingleses queriam garantir que seria seu o primeiro exemplar deste mamífero a chegar a um zoológico europeu.
A captura foi acidentada. Foi necessário enviar um grupo de batedores ao Nilo Branco, que descobriu uma cria isolada da progenitora. Trouxeram-na para o Cairo e dali Obaysch navegou para Southampton em instalações especificamente desenhadas para as suas necessidades. Chegou ao grande porto inglês na Primavera de 1850 e, ao longo da viagem de comboio para Londres, acumulavam-se dezenas de populares nas estações, ansiosos por ver o “porco nadador”.
Em Londres, foi exibido para milhares de pessoas. A rainha Vitória mostrou-o aos filhos e escreveu sobre ele. Dickens queixou-se que ele pouco fazia para além de se espojar e tomar banho. Obaysch viveu 28 anos em cativeiro e morreu em 1878.
Outros animais tiveram destinos semelhantes. Em Lisboa, em 1913, a Companhia da Zambézia ofereceu o primeiro hipopótamo ao Jardim Zoológico de Lisboa. Animal enigmático, irritável, inédito aos olhos dos portugueses, foi tema de uma vasta campanha de publicidade, que procurava chamar os lisboetas ao Zoo. Três anos depois, a Ilustração Portuguesa garantia que continuavam a chegar romarias ao local para ver o “exótico animal”. Note-se que, na sociedade portuguesa de então, "romarias" significavam apenas "homens", como o cliché de Joshua Benoliel inadvertidamente sugere.
(reprodução a partir de arquivo da Hemeroteca Digital)

E recordo também o caso do ocapi, enigmático girafídeo do antigo Congo Belga, que escapou ao crivo de zoólogos e naturalistas até 1908. As suspeitas sobre a sua ocorrência surgiram em 1900, com a descoberta de crânios e peles na posse de indígenas congoleses. O rei belga montou uma expedição, que só teria sucesso sete anos depois, com a primeira captura. Pouco depois, também o Zoológico de Londres assegurou um exemplar.
É pouco conhecido, mas Portugal tentou também bater os seus rivais europeus nesta corrida. Há alguns anos, tropecei numa carta do capitalista Carvalho Monteiro para contactos belgas, a pedido do naturalista Barbosa Bocage (que apadrinhara a entrada do construtor da Quinta da Regaleira na Academia das Ciências), procurando avidamente um exemplar, em 1902. O esforço, porém, não surtiu efeito. 

Demorou bastante até os lisboetas poderem espreitar o estranho animal das florestas do Congo. Em 1955, a Companhia de Diamantes de Angola assegurou, por fim, um exemplar vivo e ofereceu-o ao Jardim Zoológico. Como todos os seus congéneres, o ocapi encantou multidões, ciosas de ver e tornar palpável o que parecia lendário e inacessível.
Hoje, lidamos mal com espaços como o Aquário Vasco da Gama, o Jardim Zoológico ou os Museus Zoológicos da Universidade de Coimbra e do Porto. Não sabemos o que lhes fazer. As crianças já não pasmam perante os animais empalhados ou exibidos em espaços minúsculos – já os viram centenas de vezes na televisão. Querem consolas e interactividade que estas instituições não têm, nem podem ter. Aos poucos, sem função concreta, estes museus definham. Como Obaysch e as centenas de feras que, um dia, fizeram as delícias do público, também para eles a cortina se prepara para cair.

sexta-feira, novembro 02, 2012

Quando a derrota não é órfã


Conta-se que, aos 96 anos, o senhor John Rockefeller recebia um exemplar único do “New York Times”. Era uma edição composta apenas por notícias agradáveis para não assustarem o fraco coração do ancião, que vivia assim a doce sensação de ignorância enquanto o resto do mundo colapsava. Os mortais comuns, como o leitor e eu, não têm essa sorte: somos forçados a viver no mundo real, onde a natureza, pontualmente, faz sentir a sua fúria. Em 2009, isso voltou a suceder na cidade de Áquila (Itália), numa região sismicamente tão activa como o Japão, a Indonésia ou a Califórnia, mas tristemente esquecida da sua condição (lembra-lhe outra grande cidade europeia? Pois...).
No mês de Outubro, seis especialistas da Comissão Nacional para a Previsão dos Grandes Riscos e um funcionário público receberam pesadas penas de prisão pela sua actuação durante a crise sísmica de 2009. O tribunal considerou-os culpados de “homicídio múltiplo”, responsabilizando-os pela negligência que provocou a morte de 309 pessoas.
Como tantas vezes sucede nas ondas noticiosas, levantou-se um coro internacional de protestos, que assinou petições e pediu a revogação da sentença, acusando o tribunal italiano de ter punido os sete réus porque estes falharam a previsão do sismo, uma proeza por enquanto impossível para a ciência (ver por exemplo esta e esta notícias) Outros argumentaram que os cientistas eram os principais especialistas italianos no tema, como se a reputação isentasse alguém da responsabilidade.
Note-se, porém, que não foram essas as falhas que o tribunal condenou. Como bem notou o Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores em comunicado recente, a decisão do tribunal não puniu a ciência – puniu, sim, a comunicação pública da ciência. Os sete réus foram considerados culpados porque, apesar de possuírem dados científicos que apontavam para a possibilidade de um evento sísmico de grande intensidade, optaram por manter o silêncio. Falharam na sua missão de preparar convenientemente a população e de a alertar para os comportamentos adequados.
Todo o caso de Áquila foi irrepetível, mas reveste-se de amplos motivos para reflexão. Os próprios media deverão assumir parte da responsabilidade, particularmente porque concederam durante semanas tempo de antena a um “louco” local, um indivíduo sem conhecimento ou perícia científica, que fazia previsões após cada evento sísmico. A sua acção gerou pânico e obrigou à famigerada reunião da Comissão Nacional para a Previsão dos Grandes Riscos, na qual o gabinete teve de montar uma estratégia para acalmar a população e responder aos apelos públicos que exigiam tranquilidade.
O que se seguiu foi trágico. A Comissão explicou aos jornalistas que existia apenas uma probabilidade inferior a 2% de o enxame de pequenos sismos que se registava desde Outubro de 2008 produzir um sismo de intensidade mais elevada. Sem controlo sobre a sessão de perguntas e respostas, como um barco à deriva, a Comissão deixou os meios de comunicação liderarem o rumo do debate. Por fim, quando foi perguntado se os habitantes de Áquila poderiam beber tranquilamente um copo de vinho em suas casas, um dos peritos respondeu apenas: “Absolutamente”
Seis dias depois, um sismo de magnitude 6,3 destruiu a cidade.
O que falhou em Áquila – e que foi alvo da dura sentença – foi a obrigação de os especialistas comunicarem abertamente os riscos à sociedade, embora seja argumentável que no banco dos réus haveria espaço também para os responsáveis políticos do governo italiano. A excessiva passividade dos sete réus foi um triste serviço à ciência e esteve, em última instância, ligada ao desfecho.
No dia 24/10, o "Público" perguntava: “Que relação terão os cientistas com a sociedade depois do sismo de Áquila?” A resposta, espero, será uma relação mais responsável face aos riscos, uma comunicação mais aberta de todos os cenários possíveis em situação de alarme público, tendo em conta que o silêncio e a omissão passaram a ser responsabilizáveis, na sequência da importante sentença do caso Áquila.
Termino como comecei. Itália deu um bom exemplo de um processo de responsabilização até às últimas consequências na sequência de uma catástrofe natural. Se é verdade que as catástrofes são, por definição, actos da natureza, não é menos verdade que a história nos lembra que há sempre actos humanos que potenciam os riscos e aumentam as baixas.
Um nobre italiano, o conde Galeazzo, ministro dos Negócios Estrangeiros, queixou-se um dia: "Como sempre, a vitória é recebida por cem pais; já a derrota é sempre órfã!" 
Em Áquila, por uma vez, a derrota não foi órfã!

Post Scriptum: Na semana passada, um reputado especialista português e um bom amigo, foi questionado pela imprensa sobre o caso de Áquila. Perguntaram-lhe se achava justa a sentença para os sete? A resposta saiu pronta: "Não. Faltavam mais quatro políticos!"