terça-feira, dezembro 08, 2015

A peça de teatro que envergonhou um jornal


«Archivamos estes períodos porque elles hão de servir um dia para quem quizer escrever imparcialmente a história do partido republicano em Portugal, o qual partido conhece tanto a sua história que, em lhe mostrando os seus correligionários históricos taes quaes foram, desata a patear indignado por vêr reduzidas às proporções humanas de monstros sangüinários aquelles que falsamente lhes tinham pintado como seraphins de azas nos hombros e barrete phrigio na cabeça.»
Interpelado assim pelo Diário Ilustrado de 16 de Julho de 1886, recupero um dos mais embaraçosos momentos da carreira de Magalhães Lima, director de O Século.


O Teatro dos Recreios, inaugurado em 1871 no antigo parque do Palácio Castelo Melhor em Lisboa, ruge de fúria. Centenas de convivas engalanados batem furiosamente com os sapatos no solo, numa pateada épica. O ruído flui para fora da sala de espectáculos, alertando os transeuntes. Das primeiras filas da plateia, há quem se vire para o camarote D, engalanado com cortinas semelhantes às que a família real cobre o espaço quando assiste a espectáculos, e exprime a sua fúria.
«Vergonha! Vergonha!»
Alvo da súbita fúria da multidão, o homem de farta cabeleira e cuidado bigode louros desdobra-se em desculpas que ninguém ouve. Neste 14 de Julho de 1886, data de comemoração de mais um aniversário da Tomada da Bastilha e oportunidade propagandística para os republicanos portugueses, a auto-estima e a carreira política de Sebastião Magalhães Lima sofrem duros golpes. Por culpa de um amigo que na verdade não o era.
 
Referência a uma récita no Teatro dos Recreios, em 1887
(Pontos nos I, a partir de arquivo da Hemeroteca Municipal) 
ACTO I, INGENUIDADE E AVAREZA
Sebastião Magalhães Lima fora um dos fundadores de O Século, cinco anos antes deste episódio. Formado em Direito, era o típico recruta republicano da classe média. Não era oriundo de famílias fidalgas como o seu camarada de fileira e de jornal Trigueiro de Martel, nem fizera fortuna no Brasil como o administrador e mais tarde director José Silva Graça, mas a mãe deixara-lhe uma quantia razoável, administrada sabiamente pelo cunhado, Alves Dinis, «um dos mais importantes e conhecidos negociantes da praça de Lisboa», lembrou muito mais tarde Francisco Homem Cristo nas suas Notas da Minha Vida e do Meu Tempo (1937).
       Nas suas memórias (Uma no Cravo, Outra na Ferradura, s/d), Acúrcio Pereira, jornalista de uma geração posterior, conta uma história saborosa entre os dois homens. Quando Magalhães Lima chefiava A Vanguarda, chegavam-lhe constantemente pedidos de emprego e cunhas para o seu cunhado Alves Dinis. A recusa sistemática seria perigosa para um jornalista que tinha evidentes ambições políticas, pelo que Magalhães Lima e Alves Dinis combinaram um engenhoso sistema: Lima aceitaria todas as cartas ou pedidos de intervenção, remetendo-os para o cunhado por escrito. Porém, quando escrevesse sem vírgulas, o cunhado deveria perceber que o pedido merecia recusa polida. O sistema funcionou. Um dia, porém, apareceu em A Vanguarda, um indivíduo que recebeu uma carta de recomendação sem vírgulas. Por graça ou empatia política, «o redactor Gonçalves Neves, vermelhaço (…), mostrando que sabia da manha e desejava servir o postulante, quando ele regressava do gabinete de Magalhães Lima, contente com a carta, pediu-lhe que a mostrasse. A carta não tinha vírgulas. Rapidamente, Gonçalves Neves aplicou-lhas… e o homem obteve o emprego», conta Acúrcio.
       Magalhães Lima não compreendeu o desfecho: «Então, o meu cunhado até já os emprega mesmo sem vírgulas!»  


Homem Cristo em caricatura de 1921, reproduzida no Diário de Lisboa, 7 de Abril de 1986
(a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)
O director de O Século primava igualmente pela frugalidade intencional. Homem Cristo, que com ele partilhou a redacção do jornal entre 1882 e 1884, saindo depois com estrondo do partido e do projecto republicano, pintou dele um retrato pouco lisonjeiro: «Magalhães Lima, unhas de fome, vivia sordidamente», registou nos seus volumes de memórias. «Nem um lavatório tinha. Uma bacia, no poial do pote; o contador, por cima. E era preciso, dizia ele, lavar as mãos discretamente. Não pela água. Ele não chorava a água. Mas pelos ladrões da companhia. A água caríssima, e eles a porem ainda em cima contadores que contavam quatro em vez de dois. Dois e quatro para exemplificar, que eu nunca vi o contador lá em casa passar de meio. Ladrões, clamava, enchendo as bochechas e afogueando-se-lhe o rosto! Sabonete… era luxo. Sabão do mais barato. Pentes… partiam-se. Uma escova para assentar o bigode e o cabelo. Uma porcaria bíblica! Contudo, ele lá esfregava as orelhas com a escova e limpava as unhas com os palitos que vinham da travessa de André Valente, gratuitos. O certo é que conseguia manter aparências de homem limpo.»
Mesmo Esculápio, jornalista que com ele privou mais tarde na Vanguarda, tinha um episódio de avareza para contar. A estrutura quádrupla de proprietários de O Século foi-se alterando nas duas primeiras décadas. Anselmo Xavier vendeu a sua quota depois de um escândalo sobre o negócio de panificação de que era sócio. Leão Oliveira faleceu em 1898. Magalhães Lima vendeu a sua quota em 1897, deixando Silva Graça com o leme exclusivo do jornal. Mesmo nessa ocasião, depois de ganhar uma pequena fortuna (cem contos de réis), Magalhães Lima despediu-se dos redactores, foi beber uma cerveja com Esculápio e outro jornalista na Cervejaria Jansen e… insistiu que fosse um deles a pagar a conta.
Neste ano de 1886, o director de O Século goza de prestígio crescente junto do Directório do Partido Republicano Português (PRP), que encara o jornal como o veículo mais penetrante da sua propaganda. Homem Cristo acusa Magalhães Lima de não ter propriamente convicções fortes. «Era a última pessoa que falava», conta. «Incapaz de assumir uma responsabilidade e de vencer uma dificuldade. Era por isso que concordava com todos e era por isso que todos o achavam boa pessoa.» Não é exactamente verdade. Neste Verão, o director de O Século acaba de publicar a segunda parte do seu Processo da Monarchia, volume furioso contra o regime e que lhe valerá sérios problemas nos meses seguintes.
Seja como for, parece óbvio que Magalhães Lima tinha o hábito pouco prudente e ingénuo de acolher abertamente os vindouros no seu jornal, desde que lhe falassem ao coração. 
       Como sucede agora no início de Julho de 1886. O jovem tipógrafo Luiz da Costa faz saber à direcção do jornal que pretende homenagear o aniversário da Bastilha com a estreia, no Teatro dos Recreios, da sua peça A República. Não fornece pormenores sobre a trama e ninguém lhos pede. Oferece à estimada direcção do jornal o camarote principal, uma borla que naturalmente cativa Lima. O Directório do PRP assume que uma peça com essa epígrafe será uma homenagem aos camaradas franceses e compra todos os bilhetes.
No Século, Magalhães Lima anuncia a peça do «nosso amigo Luiz da Costa», embora nunca o tenha conhecido. Publica-lhe anúncios. Confirma que «o drama está muito bem escrito e deve agradar extraordinariamente. Os coros que devem produzir grande efeito estão sendo ensaiados pelo distinto maestro Rio de Carvalho». Três dias antes da festa, O Século revela ainda que o actor Dupont de Sousa recebera um telegrama de um grupo de patriotas franceses agradecendo em nome da França a grande festa democrática prevista para o 14 de Julho. Os jornais afectos à causa republicana incitam os militantes à comparência na récita. Oferecem-se cem bilhetes para os alunos das escolas democráticas. Está montada a cilada.

ACTO II, EM PALCO
Ao fim da tarde de quarta-feira, 14 de Julho, o Teatro dos Recreios está a rebentar pelas costuras. Todas as cadeiras estão ocupadas e, no salão, retiram-se as vidraças que  separam a plateia geral para aumentar o conforto. Acendem-se os bicos de gás como nas noites de gala, pois a ocasião assim o recomenda. O guarda-roupa da peça, apesar de os actores serem distintos amadores, foi confiado ao sr. Franco, do Guarda-Roupa Lisbonense. O salão está decorado. O ministro de França em Lisboa foi convidado para a grande homenagem à República Francesa.
Começa a peça.
Entre os actores do Grupo Dramático Taborda, contam-se Guilhermina de Macedo, Joana Salaty e Emília Brazão. Apresentam-se personagens do ideário republicano: Marat, Robespierre. Há sussurros no final do primeiro acto, um certo desconforto percorre a sala. «Mas são amadores», comenta-se. Certamente que a peça melhorará nos actos seguintes.
No segundo acto, piora. «Os valentes heróis da brilhante cruzada francesa», como Magalhães Lima os apelidara nas páginas de O Século, são apresentados com crueldade, como bandidos sanguinários. Brandem machados contra os fidalgos, como qualquer malfeitor sem traço de heroísmo. Da plateia, começam a brotar insultos, imprecações – primeiro, espaçadamente; depois, em coro.
O terceiro acto é representado sob o pano de fundo inaudito de três centenas de pessoas vestidas a preceito pateando sem parar. PAM, PAM, PAM! Antes do último acto, Luiz da Costa enfrenta a multidão. «Sereno e sorrindo ironicamente», como contará o Correio da Manhã do dia 16, «adiantou-se para o proscénio. A casa como que oscilava tal era a violência com que a sacudiam com os pés».
Correio da Manhã, 15 de Julho de 1886
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
O encenador, indiferente à tempestade, fita o camarote onde está o Directório do Partido Republicano Português, leva a mão à lapela do casaco onde brilha a fita tricolor que fora oferecida a todos os dignitários, arranca-a e lança-a aos pés! Se já existissem sismógrafos em Lisboa naquela altura, certamente teriam registado o rugido do teatro. Luiz da Costa sai sob escolta policial. «Não o queriam guilhotinar, não, queriam apenas pateá-lo nas próprias bochechas», ironizou o Novidades. A fúria da multidão vira-se para os líderes do partido. Partem-se cadeiras. «De pé, os espectadores voltavam-se com o olhar faiscante para o camarote do Directório. Muitos, dirigindo-se a Magalhães Lima, gritavam: ‘Saia daí, tenha vergonha!’», rejubilou Homem Cristo.

ACTO III, A CHACOTA
Face à publicidade que O Século, O Diário Ilustrado e o Correio da Manhã tinham feito da récita, o fiasco da “República” tornou-se o tema de todas as conversas em Lisboa. O Correio da Manhã foi o primeiro a contar aos seus leitores «o charivari medonho» do Teatro dos Recreios. Com fina ironia, descrevia o «camarote do sr. Presidente da República Magalhães Lima, com o seu secretário e ajudante de ordens». O público, esse, «não gostou muito dos heróis do drama, do que se pode depreender que não é positivamente o seu fraco aquelas cenas de selvageria».
Novidades, 15 de Julho de 1886
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
Apupado por meia Lisboa e glorificado pela metade restante, Luiz da Costa escreve uma carta a todos os directores de jornais da cidade. Dirige-a «não aos republicanos arruaceiros, mas sim aos espectadores sensatos», lembrando que levou a palco «cenas que todo o mundo sabe que se deram».
«Não tive em vista fazer propaganda democrática porque não sou democrata e, se o fosse, bastar-me-ia a noite de ontem para abandonar um partido que só adora a mentira. (…) Se continuasse a fazer propaganda, limitava-me apenas a representar o Santo Marat de braço dado com o cândido Robespierre.»
Luiz da Costa prosseguia, revelando que nunca pedira publicidade. Fora O Século que a oferecera e interpretara o teor de uma peça pelo título, considerando-a adequada para os seus.
A imprensa monárquica ri vigorosamente. O Novidades de 15 de Julho descreve o incidente «como uma das coisas mais extraordinariamente curiosas e mais inacreditavelmente divertidas que têm sucedido em Lisboa». Sucede que a peça «escolhida como prato a seu gosto, ao paladar dos republicanos convidados, era nem mais nem menos do que… uma sova já premeditada e convictamente escrita contra as ideias daquele partido. (…) Espantoso, não é assim? Quando todos se preparavam para comer lebre, verificam com horror que estão a trincar gato!»
No Século, Magalhães Lima tenta fugir do embaraço. Culpa um grupo de jovens bem intencionados que lhe propôs a peça e a comissão do partido que lhe enviara comunicados para publicação sem validar o guião. «Fomos mistificados e mistificados foram também os nossos amigos por circunstâncias realmente muito lamentáveis», escreveu. Quanto ao autor, «nem mesmo lhe pronunciamos o nome (…) Em paz e às moscas…».
O Século, 16 de Julho de 1886
(a partir de arquivo da Biblioteca Nacional)
Como o Novidades regista, Magalhães Lima bem pode «sacudir à porta o pó das suas sandálias» que o incidente não seria esquecido. «Quererá dizer o Sr. Magalhães que ele, como redactor de O Século e não como membro do directório é que não foi ouvido nem achado em semelhante coisa?(…) Como é, então o Sr. Magalhães Lima, director, falou sempre tão baixo que o Sr. Magalhães Lima, redactor, não o conseguiu ouvir nunca?»
No Diário Ilustrado do dia 16 de Julho, por mão de poeta anónimo, ficou gravada a gazetilha inesquecível:
«Parabéns, Magalhães Lima
Da monarquia serrote,
A quem já ontem puseram
Cortinas no camarote.

Estás pois todo tricles
De barrete no totiço
Faixa tricolor à cinta
E eu que não soube d’isso!

De vez em quando, disseram,
Sorrias com altivez.
Dás um belo presidente,
Melhor que Grevy, talvez. [4.º Presidente francês]

De mais a mais tens cabelo,
Tens a pinha como o oiro
‘Inda há-de o povo dizer-te
- Dá cá beija-pé, meu loiro.

O Teatro dos Recreios não sobreviveu mais de 11 meses. No final de Junho de 1887, foi demolido devido ao início das obras do túnel ferroviário do Rossio, conforme nota o Diário Ilustrado de 29 de Junho desse ano.

segunda-feira, outubro 26, 2015

Recensão com 17 anos de atraso



Por mera coincidência, no mesmo mês em que uma colega de faculdade discutiu comigo entusiasmadamente o desafio que seria reconstituir a história de O Independente e do seu impacte na sociedade portuguesa na década de 1990, li Os Implicados, de Sarah Adamopoulos (Dom Quixote, 1998).
Obra de ficção (a segunda da autora), é um dos livros mais corajosos que já li e constitui o terceiro vértice de uma troika de biografias não autorizadas sobre velhos jornais. Não tenho, aliás, qualquer receio em colocar Os Implicados no mesmo patamar de Código de Hamurabi, de Artur Portela, e de A Homenagem, de Altino do Tojal. São livros-denúncia, obras de ficção sobre realidades escondidas nos jornais portugueses, oportunidades únicas de espreitarmos para lá da cortina de veludo de cada publicação e de conhecermos os bastidores para lá do fel.
Enquanto escrevia a dissertação de doutoramento, o meu orientador avisou-me com frequência que a tese é um pouco como um pano bordado a ponto-cruz. A face que se mostra ao exterior é limpinha, sem rasuras, como se a arte fosse escorreita e a investigação fluísse sem hesitações; a face escondida, aquela que só nós conhecemos, mostra os remates aldrabados, os nós e cortes, as imperfeições – de certa forma, é isso que Sarah Adamopoulos fez com O Independente, apresentado nesta obra como «o jornal» ou «o meu jornal». Mostra-nos o jornal para lá do pano da primeira página, com as manias, os tiques, os génios e os maus génios próprios de qualquer instituição.
Construído com cerca de três dezenas de pequenos capítulos, o livro descreve personagens e taras com alguma crueldade. Ali figuram «o careca da administração que tem a ilusão de mandar mais do que o Director», «as stars da redacção», «o empata-fodas do Chefe da Redacção» e o Director histérico, vaidoso e de face imberbe, que não hesita em mudar as reportagens dos outros para as adaptar à mensagem política que pretende e que mais tarde fugirá para ocupar um cargo partidário. «O Director é um homem dos antigos que está enganado de época. Durante o Estado Novo, o Director teria sido quiçá Ministro, Estadista, quem sabe.»
       Figura também a Repórter-Diva, «mulher fatal que escreve bem e é casada com um intelectual que está sempre em casa de roupão verde e pantufas e que bebe mais do que devia». E, claro, o «Outro Director», «um criativo», um escritor com vasta legião de seguidores, que vem uma vez por semana à redacção «cagar ideias» rodeado de starlettes e um dia abandona o jornal porque se fartou. Gosto particularmente do «Directorzinho», que o substitui, e fala ao telefone de pé com as altas patentes da Defesa, «como se estivesse em continência». Deixo ao critério de cada um a identificação das personagens.
Este é um jornal no qual os «apelidos compostos são muito importantes (…) Há quem inclusivamente contraia matrimónio por causa dos apelidos compostos (…) O jornal está cheio de nobres assim deste tipo (…), mas os nobres do jornal não só não têm dinheiro como estão intelectualmente empobrecidos».
Imperdível é o capítulo sobre «Jacinto», que «vai às compras para a redacção» e cuja mercadoria é ansiosamente aguardada pelos repórteres. Pouco depois, «o Outro-Director faz sessões criativas com ele-próprio», «alguém parte para a casa-de-banho num salto que finta uma pequena multidão de gente subitamente aflita para fazer chichi» e Sarah controla «divertida os movimentos do vai-vem de aflitinhos para ir à casa-de-banho».
       Não se infira, porém, que Os Implicados é uma obra de despeito de uma jornalista despedida. É o livro não oficial de «um jornal que gostava de ser azul mas está a ficar cor de laranja» e de uma jornalista que, apesar de tudo, o olha «com um mínimo de 256 cores» e que consegue ver o jornal que a «mantém apaixonada». Ou manteve.

segunda-feira, outubro 19, 2015

Parem as Máquinas!


Uma gentileza impagável do Fernando Correia e do João Paulo Cotrim, publicada na última edição da Jornalismo e Jornalistas.

quinta-feira, outubro 01, 2015

O contrato de Jesus validado na poltrona

Record, 1 de Outubro de 2015

Começo com uma história, como fazem os velhos, quando querem certificar-se de que os outros estão à escuta. No velho Estádio de Alvalade, os jornalistas em dia de jogo trabalhavam nas últimas filas da Bancada Central, alguns lugares acima da Tribuna de Honra. Era um lugar simpático, sem acesso a croquetes infelizmente, mas suficientemente perto para ouvirmos os palavrões de Sousa Cintra [«é penalte, porra!»], os roncos de Simões de Almeida [«venho ao futebol porque sou obrigado»] ou os delírios de Dias de Cunha.
Certo dia de 1995 ou 1996, após um jogo nocturno, já só lá estavam os repórteres matraqueando em computadores primitivos as parcas crónicas de jogo. Quando terminava, era meu costume esticar as pernas em passeios ao longo das filas da tribuna enquanto os meus camaradas terminavam as respectivas crónicas. Nessa noite, por atraso, não o pude fazer porque a minha crónica demorou mais.
A certo momento, chegou esbaforido um conhecido vice-presidente do clube. Ficou aterrorizado quando viu o pessoal da imprensa ainda no local e dirigiu-se à cadeira, onde, horas antes, assistira ao jogo. Ali chegado, retirou uma pasta do espaço entre a sua e a cadeira do vizinho e, visivelmente aliviado, disse-nos: «Nem acreditam! Deixei cá a pasta com os contratos dos jogadores!»
O som do nosso desapontamento colectivo deve ter servido para abalar aquela pala de cimento que Santana Lopes garantira em 1992 que estava prestes a ruir e na qual o engenheiro Edgar Cardoso pulara, para divertimento de Sousa Cintra. Estivéramos a metros de informação privilegiada e não lhe deitámos a mão. Nessa noite, por partida do destino, não tive de responder à questão que se colocou ao jornal Record durante esta semana: tendo acesso a um contrato de um dos principais funcionários de um clube, deve uma organização noticiosa publicá-lo?
O Record não parece ter tido dúvidas, a avaliar pela descrição de António Varela na edição de hoje. Na madrugada de terça-feira, foi enviado um e-mail (anónimo? Não fica esclarecido esse ponto. Só se refere que o autor do site é anónimo) para o jornal às 5h25. Anunciava a criação de um novo site de Internet, o Football Leaks, para desvendar documentos embaraçosos sobre o futebol português. Alojado na Rússia, onde os sites têm garantias de anonimato, começou por afixar o contrato que liga Jorge Jesus ao Sporting desde Junho deste ano, entre outros documentos.

JUSTIFICAÇÃO
Fortemente abusada, a cláusula de confidencialidade que uma organização noticiosa oferece à fonte que lhe fornece informação privilegiada começou por ser um privilégio especial, destinado às ocasiões – e só a essas – em que nenhum outro mecanismo era suficiente para persuadir a fonte a falar.
Aceitemos a premissa de que esse caso se aplica nesta situação. O Record saberá quem foi o autor do e-mail para a redacção e entendeu que justificar-se-ia a oferta de confidencialidade nestas circunstâncias.
Qual a justificação jornalística para a publicação de um contrato? Ou, por outras palavras, se eu amanhã tiver acesso ao contrato que liga António Varela à Cofina, tenho, ou não, o direito de o divulgar?
Neste caso de Jorge Jesus, não se trata de uma organização pública onde se aplica mensalmente dinheiro do contribuinte e onde existiria a justificação moral e cívica de que o cidadão tem direito a conhecer o destino do dinheiro dos seus impostos. É uma organização privada (a SAD).
Não está em causa a revelação de um crime exposto pela documentação, como sucedera no caso da cassete de António Oliveira em 1996.
Por tudo o que foi apresentado, nem sequer há contradição entre declarações públicas dos dirigentes da instituição e cláusulas agora expostas no contrato.
Onde diabo cabe a justificação jornalística?
Há duas possíveis respostas. Por um lado, na data do contrato, uma vez que este foi assinado a 5 de Junho e existe uma disputa judicial com o clube anterior do treinador, que lhe recusa pagamento do mês de Junho. Mas se fosse esse o motivo (e não um pretexto), bastaria revelar em fac-simile a data do contrato e o ponto estaria feito, sem expor todas as cláusulas e até a morada do treinador.
O argumentário do jornal cozinhou outro motivo: sendo o Sporting um clube com milhares de adeptos, é natural que tudo o que diga respeito à vida interna do clube seja passível de interesse. É um argumento mais poderoso, mas, que, para mim, encontra nítidos problemas de demarcação. Se eu amanhã souber em que 5 à Sec Bruno de Carvalho deixa os fatos a limpar, justifica-se a publicação dessa informação sobre o presidente de um clube com tantos milhares de adeptos? Onde termina a fronteira da noticiabilidade quando se trata de uma organização que interessa a tantas pessoas?
Entendo esta publicação como um acto de voyeurismo, em princípio bem sucedido como estratégia comercial (embora só na versão digital porque, na versão em papel, o tema foi empurrado para a coluna lateral da primeira página), deficientemente justificado, mas que não deixa de interessar a leitores e paineleiros do desporto. O facto de ser tema de conversa incessante nas redes sociais comprova que se trata de uma revelação que interessou a milhares de pessoas.

SALVAGUARDA
Não estou convencido, porém, de que o jornal tenha feito tudo para avaliar a veracidade do documento. No texto de hoje, são omissos quaisquer outros passos que certifiquem que aquele contrato foi validado. Não são mencionados grandes esforços de contacto com fontes oficiais ou não oficiais. Varela refere que, confrontados os clubes (há outros documentos citados, mas, para focagem de discussão, fixo-me neste contrato de Jesus com o Sporting), nenhum desmentiu. Tenho muita pena, mas não chega: um desmentido não é uma confirmação.
Na última página, Pedro Guerreiro, colunista externo do jornal, comenta o documento, lembrando-o, por duas vezes, que, se for verdadeiro e completo, o contrato significa isto e aquilo. Caramba! Esse passo tem de ser dado antes da publicação ou um jornal tornou-se só um veículo de amplificação de sites manhosos alojados na Rússia?
Se amanhã se provar que o contrato foi truncado, que não é real, que os valores foram modificados com que cara fica o Record?
Nos últimos anos, tivemos dois casos semelhantes na agenda internacional: por um lado, as revelações do site Wikileaks, reproduzidas amorfamente, sem contestação nem validação por esse planeta fora; por outro, as revelações de Edward Snowden, que mereceram uma parceria internacional entre jornais para confirmação da informação privilegiada antes da sua divulgação, o que levou a um atraso significativo entre a revelação e a difusão das histórias.
Num caso, foi jornalismo Ovomaltine, deitado no copo e bebido com leite. No outro, houve verdadeiro trabalho de investigação. Parece-me evidente em que categoria recai este Football Leaks… 

sábado, setembro 19, 2015

O dia em que fui primeira página de jornal



Não me recordo do motivo, mas não deve ter sido sério. Culpa nossa ou culpa deles? Palavra que não me lembro. Fosse por que motivo fosse, naquele mês de Setembro de 1995, as portas do Sporting Clube de Portugal fecharam-se para o meu jornal e para os camaradas do Record. Black-out selectivo. O clube distribuiu um comunicado, escrito por um amigo meu, «com o coração a chorar» como depois me contou, vedando a nossa entrada em todas as sessões abertas à imprensa.
Hoje, já sei que é sempre «com o coração a chorar» que estas decisões são tomadas. Sobretudo quando são os outros que se fodem.
Foi há muito tempo, compreendam. Na Internet, ainda só existia o Jornal de Notícias. Os poucos telemóveis disponíveis ficavam no carro e pesavam menos do que tijolos. Deslocava-se o ombro só por dobrar uma página da nova Gazeta nos transportes públicos. O meu camarada Paulo Rolão ainda tinha cabelo. As cadeiras verdes no campo do Leça desenhavam a enigmática expressão FORCA LECA, precursora de acordos ortográficos exóticos. Carlos Queiroz parecia destinado a altos voos (palavra!). Miguel Relvas ingressava na Universidade Lusíada para cursar Relações Internacionais (juro!), mas desistiria um ano depois sem concluir qualquer cadeira (pois…). Foi portanto há muito tempo!
Santana Lopes tinha acabado de assumir a presidência e mostrava um estilo interventivo e dirigido ao coração dos adeptos – o Sporting não toleraria mais abusos nem poucas-vergonhas (onde é que já ouvi isto nos últimos meses?). Fecharam-nos as portas, excepto nos dias de jogos. Sempre que marchávamos para Alvalade, barravam-nos a porta. Entrevistei porteiros e seccionistas. Apanhava as pontas soltas e enchia páginas com pequenos nadas. Creio que cheguei a escrever uma notícia sobre um intruso que pernoitara no Museu – peça sólida, claro. Sumarenta como poucas. Podia ter dado para o Pulitzer, mas os tipos em Nova Iorque preferiram dá-lo ao Mark Fritz pelas reportagens no Ruanda. Critérios…
No final da tarde do dia 20 de Setembro, no então Hotel Penta, o clube agendou uma conferência de imprensa que pretendia publicitar os pareceres jurídicos entretanto recolhidos sobre a razão que assistia ao Sporting no diferendo com o Benfica relativo às rescisões dos jogadores Pacheco e Paulo Sousa. Talvez mal habituado pela política, Pedro Santana Lopes (PSL) gostava de se fazer esperar. Invariavelmente, deixava passar 90 minutos, por vezes 120, antes de emergir das catacumbas para falar aos media. Claro que a rapaziada, obediente, esperava. Sempre fomos bem treinados. Alguns até sabiam estender a patinha quando recebiam ordens para isso.
Desta vez, foi diferente. Cheguei ao hotel com mais dois camaradas. Fomos barrados comme d’habitude. Ficámos à porta com aquele ar de caniches que a fotografia ilustra. O simpático José Caria, então assessor do presidente, desdobrava-se em explicações. Com o coração a chorar, bem sei, mas fazia a vez de porteiro de discoteca. Por ali, não passávamos.
O António Freitas fotografou o momento. Mais tarde, na redacção, alguém propôs uma legenda que daria cacofonia: «Por Caria, a Gazeta foi proibida de entrar.» Não vingou.
Correram alguns minutos. Do presidente, nada se sabia. Chegou o Carlos Severino, da TSF. Viu-nos à porta. Entrou, percebeu o que se passava e, com a espontaneidade de sempre, perguntou ao assessor: «Então, eles não entram?» Quando percebeu que havia black-out, foi curto e grosso. «Se eles não entram, não entra ninguém!» Metade da rapaziada levantou-se logo, como se tivesse molas. Outros, os de sempre, ficaram por lá, acabrunhados, à espera de instruções, de calculadora na mão, contabilizando os black-outs já sofridos e a ausência de gestos similares.
Será que podíamos mesmo deixar PSL a falar sozinho?
Severino olhou para nós – a turma dos excluídos da Gazeta e do Record. Perguntei-lhe se era para levar a sério. Nem pestanejou. Como um ciclista em fuga na Volta a Portugal, tomou a liderança. Num ápice, irrompemos escadas abaixo com a sensação de que estávamos em vias de cometer uma imprudência bestial. Éramos garotos apanhados com a mão no pote dos doces. Lembro-me que, quando cheguei ao átrio, já tinha imaginado a crónica daquele dia. Minutos depois, chegou a segunda leva, a dos renitentes, acompanhada do simpático José Caria, que tentava travar a avalancha. «Eh pá, não façam isso ao homem!» Não explicou se estaria com o coração a chorar.
Fomos mesmo embora. «Os jornalistas gritaram ‘Basta’!», escrevi eu nessa noite, num texto confuso e romântico (Jesus, que confusão ia naquela cabeça!). «Deixaram Pedro Santana Lopes a falar sozinho para aprender a regra mais elementar da democracia (…). Da próxima vez que precisar da comunicação social, o Dr. Santana Lopes pensará duas vezes. Evitará cair novamente no ridículo!»
O grande chefe Galvão riu-se bastante do texto e da atitude. Deu-me uma daquelas pancadas brutas no ombro, à Freddy Kruger, chocalhando-me como um sismo de grau 5 na escala de Richter. Provocou-me: «Amanhã, lá na faculdade, já tens uma história para contar às gajas!» (não resultou!).
Escrevemos.
Publicámos na primeira página.
Claro que não mudou nada. O mundo não se modifica com bravatas. Nas conferências de imprensa seguintes, ficámos sempre à porta, como padroeiros das causas perdidas. De olhos no chão, alguns dos solidários do dia 20 voltaram à rotina das esperas de 90 a 120 minutos pelas entradas dramáticas em cena. «Então, rapazes, mais um dia?»
Caria deixou de sorrir quando me via.
A Gazeta fechou cerca de três meses depois. Houve gente de bem que chorou. Também se faz luto quando um jornal morre, sabiam?
Provando que não tinha maus fígados, Pedro Santana Lopes deu-nos o prazer de comparecer na festa de lançamento da revista Mundial seis meses mais tarde, como se nada tivesse acontecido. Na ocasião, foi um cavalheiro.
Creio, mas não juro, que este foi o último black-out decretado contra a Gazeta dos Desportos. Faz amanhã 20 anos e eu nunca agradeci ao Carlos Severino pela solidariedade daquele dia no Penta.

segunda-feira, agosto 24, 2015

104 anos, oito décadas de carreira


A Manuela de Azevedo vai lançar novo livro na próxima segunda-feira, 31, dia em que também completa 104 anos de idade. São oito décadas de carreira da primeira jornalista portuguesa com carteira profissional. Seria bonito se a rapaziada conseguisse aparecer na Casa da Imprensa ao fim da tarde para assistir ao lançamento.

domingo, agosto 09, 2015

O jornalismo na ficção portuguesa (a minha lista)


Há meses, compilei (aqui) empiricamente as melhores memórias de jornalistas publicadas em Portugal. Era, e é, uma lista sempre em actualização, quer em função de obras que vou conhecendo tardiamente, quer em função dos novos volumes que se vão publicando. Na semana passada, em conversa por e-mail com um jornalista e escritor que muito respeito, surgiu a ideia de repetir o exercício para a ficção portuguesa dedicada aos jornais e aos repórteres, sem prejuízo de uma antologia mais consolidada e rigorosa.
Não foi tarefa fácil, nem será unânime. Comecei por excluir os livros que, embora coloquem jornalistas no papel de personagens, pouco têm que ver com jornalismo, misturando criptologia com prática detectivesca de segundo escalão ou secundarizando o papel do repórter no enredo. Na verdade, listo aqui apenas as obras que se deram ao trabalho de pintar as redacções com as cores de cada época, retratando mundo reais e tensões verosímeis. Fiquei, claro, com uma lista curta, mesmo não tendo feito a destrinça entre contos, romances e peças de teatro… Pior: o ranking corresponde praticamente a obras publicadas antes de 1974, como que validando o jornalista embriagado de Lavagante (2008), que José Cardoso Pires coloca a beber ao balcão do bar A Lanterna, enquanto lamenta: «Viciámo-nos. Agora temos a Censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã quando a censura acabar?»
       Esta será portanto a minha lista. Completem-na se vos parecer que cometi injustiças.

1) Os Insubmissos, Urbano Tavares Rodrigues (1961)
Livro notável e íntimo de Urbano que ficciona o fracasso do jornal Diário Ilustrado, projecto editorial nascido em pleno Estado Novo e liderado pelo seu irmão, Miguel Urbano. Na obra, o jornal chama-se Acção Cultural, e Miguel Urbano é Ernesto, o chefe de redacção. Consumido por constantes tensões entre a redacção e a administração, o jornal fracassa quando um dos redactores é acusado de um crime menor. Ernesto demite-se, a redacção sai em bloco (os insubmissos), com algumas traições pelo meio. Nunca mais me esqueci do diálogo entre Ernesto e o administrador, o Dr. Fernandes, cujo rosto se «jesuitizava» nas discussões. Ernesto explica ao proprietário do Acção Cultural que foram eles, os jornalistas, os tipógrafos, que fizeram o jornal. Friamente, o administrador contrapõe: «Com o nosso dinheiro, senhor doutor. Não se esqueça por favor desse pormenor, que tem a sua importância.»

2) O Código de Hamurabi, Artur Portela (1962)
Descobri-o há pouco tempo e fiquei encantado. É um livro íntimo e incrivelmente provocatório escrito por Artur Portela aos 25 anos. Descreve a experiência do jornalista no Diário de Lisboa, desde a sua entrada, poucos meses antes da morte do pai (Artur Portela, ícone do vespertino de Joaquim Manso), até à sua demissão na década de 1960. Os nomes são ficcionais e tornou-se um exercício obsessivo atribuir identidades aos Sales, Tancredos, Maias, Cunhas, Rochas que vão emergindo. Julgo que descobri mais de metade, mas o Artur Portela não teve a bondade de me confirmar se acertei. Numa carta aberta ao autor, José-Augusto França confirmava em 1962 que o livro era uma pedrada no charco e, se gerara azedume no jornal da Rua Luz Soriano, isso devia-se ao acerto das caricaturas. A vida jornalística de Artur Portela quase terminou com a publicação deste livro e o próprio autor teve noção disso, quando registou: «Estou liquidado, nos jornais estou liquidado, sou um maldito, lepra, pelo menos por enquanto, meses, à portuguesa, humildemente, enquanto se lembrarem, antes que isto acabe em abraços porque há uma maçonaria sem regulamentos, é claro, e eu estou cuspido, ando a monte.»

3) O Secreto Adeus, Baptista-Bastos (1963)
Fiquei espantado quando constatei que os três primeiros volumes desta lista foram publicados entre 1961 e 1963, período de aventuras jornalísticas, redimensionamento da infalibilidade do império português e de inevitáveis repressões sobre as redacções. Os três constituem actos de coragem, mas este será o volume que arriscou mais, até porque, à época, BB encontrava-se em situação laboral precária em O Século. O protagonista é um jornalista rebelde, por quem a filha do administrador se deixa tentar, surpreendida pelo desprendimento com que este lida com a Censura e os constrangimentos ao seu trabalho. Ao longo do romance, o repórter vai perdendo a ilusão, vendendo-se aos poucos à lógica institucional, deixando-se formatar pela máquina. Não é uma história feliz, mas é uma história real, «sem sentimentalismo, sectarismo ou doutrinarismo», como escreveu Rodrigues Miguéis numa recensão. Um ano depois da publicação, Baptista-Bastos entrou para o Diário Popular.

4) A Homenagem, Altino do Tojal (1974)
Já descrevi este comovente volume de contos numa ocasião anterior (aqui), salientando que a coragem do autor lhe valeu o despedimento do Jornal de Notícias. O conto A Homenagem é um exercício de vaudeville, uma descrição sarcástica e impiedosa dos vícios de uma publicação autoconvencida da sua reputação, apreciada por um narrador que, a espaços, teme pelo destino do redactor de Estrangeiro, o próprio Altino. «É corrente dizer-se que o jornalista mata o escritor; mas receio bem que, neste caso, o escritor dê cabo do jornalista», refere premonitoriamente. Ao contrário do chefe de redacção, que chora copiosamente em honra de Sua Excelência, o Director, «o repórter de Estrangeiro não chora». Ou melhor: «Esse morcão só as derrama para dentro. A Natureza não o equipou devidamente para triunfar neste planeta.»

5) Fotomontagem, Artur Portela (1978)
Fotomontagem é a saga de Artur Portela e José Sasportes (o João e o Souzela, responsáveis pelo novo diário Hoje) ao leme do Jornal Novo, projecto jornalístico que emergiu um ano depois da Revolução de Abril e foi congelado logo após o 25 de Novembro. É uma obra de ficção sobre uma derrota real – durante menos de um ano, o projecto nocturno Jornal Novo tornou-se o diário mais vendido em Lisboa, acumulando cachas sobre o processo revolucionário (foi aqui que se publicou em primeira mão o «Documento dos Nove»; foi aqui que Luís Vasconcelos publicou algumas das fotografias mais icónicas de 1975), mas o triunfo profissional rapidamente foi superado pelas manobras da empresa proprietária, que alinhara temporariamente os seus interesses com os de João e Souzela. Ou, se preferirem de outra maneira, o tempo de Artur Portela e José Sasportes esgotou-se em busca de uma terceira via socialista para a revolução que nunca chegou a emergir.
Há dezenas de episódios memoráveis e bem-humorados no livro. A reunião dos dois jornalistas com o séquito de Mário Soares é deliciosa («homem, já lhe disse, é um café e um chá!»); a recepção do senador americano a um grupo de jornalistas portugueses mais confusos do que o visitante é reveladora, sobretudo graças ao impagável “Nuno Reis”, que transforma a sessão num quadro patético de subserviência, para alegria de “Manuel de Sousa Rebelo”, que ri a bandeiras despregadas. O título Fotomontagem homenageia o recurso mais usado na primeira página do Jornal Novo – a sobreposição de fotografias de políticos em imagens de cartoons. Afinal, foi por causa de uma fotomontagem de Mário Soares na primeira página que "Mário Mesquitela" pediu a demissão do Hoje.

6) Os Implicados, Sarah Adamopoulos (1998)
Este volume da jornalista Sarah Adamopoulos completa aquilo a que chamaria a trilogia das biografias não autorizadas de jornais do século XX, a par do livro de Artur Portela sobre o Diário de Lisboa em 1962 e dos contos de Altino do Tojal sobre o Jornal de Notícias em 1974. Esta ficção sobre uma década de trabalho em O Independente é dura, mas realista; divertida, mas incrivelmente comovente; agressiva, mas engajada. É a história de um jornal com «jornalistas-betos, católicos, vagamente nobres, conservadores-liberais, todos jovens promissores que nunca foram para Paris exilar as ideias e que percebem afinal muito pouco de um Antigo Regime que os fascina sobremaneira». É a história de um encantamento profissional que se desvanece. É um livro de uma grande escritora (recensão aqui).


7) O Cavalo a Tinta-da-China, Baptista-Bastos (1995)

Publicada já em democracia, a obra descreve o artifício de Francisco José, revisor de A Voz, diário monárquico e católico, para superar os constrangimentos de censura e entregar-se à produção de um manuscrito críptico sobre Salazar e a solidão do poder, «um político que historicamente se transforma em manuscrito». A tarefa é transferida para os ombros do filho, Manuel, que se debate com receios sobre a sua real capacidade literária e sobre a repressão que inevitavelmente cairá sobre si. A acção oscila entre a Lisboa do pai e a do filho, temperada por figuras literárias e jornalísticas que marcaram a cidade. É muito provável que as palavras que Baptista-Bastos coloca na boca de Reinaldo Ferreira, o repórter X, constituam a sua verdadeira declaração de interesses literários: «Não escrevo para leitores-rãs, os que atravessam um livro sem engolir uma gota de água.»


8) Os Memoráveis, Lídia Jorge (2014)

Se algum estudante de literatura em 2050 quiser recuperar o estado de espírito em 2014 da geração que protagonizou, para o melhor e para o pior, a Revolução de 1974, provavelmente não encontrará um romance tão adequado como Os Memoráveis. É um volume correspondente aos Vencidos da Vida do século XIX – na política, nas aspirações e no jornalismo. Lídia Jorge dispôs a acção entre 2004 e 2010,  recriando os passos de uma equipa portuguesa de jornalistas televisivos, em serviço para a CBS, com a missão de produzir um documentário sobre a revolução de 1974 e «encontrar entre as pedras da calçada miudinha os restos dos cravos, a única metralha de que se socorreu o seu povo para derrubar os velhos tipos e também para se entenderem entre si». Estas palavras foram colocadas na boca do antigo embaixador americano em Lisboa, que "sugere" o documentário a Ana Maria Machado. As aspirações de documentar jornalisticamente o golpe nobre e romântico, sem emoção nem subjectividade como a CBS ensina, são rapidamente desmembradas no contacto com os protagonistas, vencidos pela realidade, pela traição e pelo facto de se terem apaixonado por 1974 e recusarem o regresso à banalidade da rotina.  Pelo meio, a escritora dá voz a um personagem secundário comovente, António Machado, jornalista com dezenas de anos de carreira, uma voz venerada nos anos quentes e entretanto devorada pelo seu jornal de sempre. É impossível não sentir empatia com António Machado, que já não conhece o seu jornal, que se irrita com o jovem director que o trata por você, com os estagiários que não sabem quem foram Hitler e Roosevelt, com a sua mesa e computadores ocupados sem respeito. Por isso, um dia arruma a pasta e nunca mais volta. Devorado. Vencido – como os românticos da sua geração.

9) A Noite, José Saramago (1976)

Única peça de teatro nesta lista, é uma obra injustamente negligenciada na bibliografia de José Saramago. Toda a acção decorre na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 num jornal não discriminado de Lisboa. O chefe de redacção, Abílio Valadares, há muito que se rendeu aos constrangimentos do cargo, à censura, à repressão, ao escrutínio da administração e à adulação do director, Máximo Redondo. Os seus contrapontos são Manuel Torres, repórter de província, Cláudia, uma estagiária, e Jerónimo, o linotipista. Dois modelos de jornalismo são discutidos na mesma redacção na noite em que tudo se modifica no país, enquanto o jornal se mantém imperturbável. Ao tomar conhecimento da revolução, Valadares paralisa. Recusa publicar uma linha sobre ela. Talvez imagine que, se não lhe ligar, a revolução esmorecerá. Afinal, como diz no primeiro acto, tudo se resume a uma máxima: «O senhor director nunca atrasa o jornal, o senhor director é o jornal!» Saramago tem o mérito de incluir, no diálogo secular entre jornalistas e administradores, um terceiro grupo de personagens, os tipógrafos, aos quais concede um carácter decisivo na relação social do interior da redacção.

10) O Despojo dos Insensatos, Mário Ventura Henriques (1968)

Como boa parte da obra de ficção de Mário Ventura Henriques, este volume de 1968 é um tratado de cepticismo e de descrença, sublinhando a convicção do autor, após a sua prisão na década de 1960, de que pouco ou nada mudaria na política portuguesa se dependesse da consciencialização da população. Ventura imagina uma vila algarvia, a Açoreira, radicalmente transformada com a chegada em massa de turistas  estrangeiros. Tudo na vila gira agora em torno dos três meses de Verão, da necessidade de não hostilizar o forasteiro e de filtrar a "triste" imagem dos pobres da vila. José Álvaro, repórter de um grande diário lisboeta (com currículo semelhante ao do próprio autor), encontra-se na Açoreira em gozo de férias, martirizado pelos textos que não escreve, pelas notícias que não regista, pela ideologia que  não combate. Quando um grupo de pescadores inicia uma greve, o repórter acentua a sua divisão íntima entre o «alheamento voluntário (…) que empurra para a desumanização» e a adesão ao protesto. Acaba por encontrar uma terceira via, agredindo as forças policiais e sofrendo pena de prisão – não pactua assim com a omissão nacional do protesto, mas também não se vincula à sua lógica.


Haverá seguramente mais obras. Tenho na calha a leitura da novela Dois Jornalistas, de Teixeira de Pascoaes, mas estas são, para já, as minhas escolhas [em actualização].