quinta-feira, janeiro 29, 2015

Cem dias no Atlântico Norte




Ainda não conheço o Pepe Brix pessoalmente e já gosto dele.
Só falámos por telefone e por correio electrónico. Há alguns meses, mandou-me – a medo – um PDF com uma recolha fotográfica que tinha concluído. Não tomem isto à conta de bazófia, mas tenho pouco tempo para espreitar portfolios. Deixei o material em lume brando. Um dia, ao fim da tarde, numa daquelas raras tardes em que por momentos parece que a fornalha está suficientemente saciada de carvão, comecei a ver a reportagem fotográfica.
Madre de dios! Que imagens! Que sensibilidade! Teletransportei-me naquele instante das Avenidas Novas de Lisboa para o Atlântico Norte. Para um barco velho, de pouco mais de oitenta metros, refúgio metálico de homens bravos que não têm outra casa durante a campanha. Para as águas frias que o bacalhau prefere, como se zombasse dos homens que o perseguem.
Privilegiamos em jornalismo as histórias novas, os contextos ainda não sugeridos, as narrativas por contar. O Pepe Brix, fotógrafo açoriano de Santa Maria, mandou essa lógica às malvas. Durante três meses e meio, trabalhou numa das histórias mais antigas da relação dos portugueses com o mar: os bacalhoeiros na Terra Nova. E explorou a partir daí uma nova linguagem sobre o quotidiano a bordo, a resistência de quem se força a este extremo para ganhar a vida. Em última instância, esta é uma reportagem sobre superação de limites.
Na revista de Fevereiro, a partir de amanhã nas bancas e assinantes, publicamos a reportagem. E ainda há um vídeo. E uma exposição na rampa de lançamento. Durante algumas semanas, será como se colocássemos um holofote sobre uma pequena mancha escura que sulca ondas no Atlântico.
É esse o sortilégio do jornalismo. Encontrar narrativas que valem a pena contar e amplificá-las. Mesmo que para isso seja necessário viver cem dias no Atlântico Norte.

sábado, janeiro 17, 2015

Memórias de jornalistas


[texto actualizado no dia 26 de Junho de 2016]


Fortemente desapontado depois de concluir Os Meus 50 Anos no Diário de Notícias (Fernando Pires, JM Edições, 2012), resolvo vingar-me e ordenar os livros da estante em função das minhas preferências. Em Portugal, há pouca tradição de memórias jornalísticas, e é pena. As memórias são a passagem secreta para as gerações posteriores regressarem ao passado e colherem, em testemunho directo (mesmo se ideológico; mesmo se falso), o que pensaram e porque agiram os homens e mulheres que os precederam.
Devem ser tomadas com as devidas cautelas. Os capítulos de Fernando Pires dedicados a Tomé Vieira ou Fernando Fragoso no Diário de Notícias são tão eloquentes como os capítulos que ele não redigiu sobre o mesmo período. Sublinha que Augusto de Castro nunca alterava um texto de outrem e reconhece que o «o meu trabalho não foi o que está publicado no jornal; esse é o resumo consentido, de algumas audiências uma caricatura». Mas não retira daí grandes lições, nem aproveita para contar como era o quotidiano dos jornalistas no mundo "visado pela censura". Passa rapidamente para 1974. Como diz com requinte o primeiro-ministro Hacker, na série cómica Yes, Prime Minister, as «memórias são a última tentativa de reescrever a história, não como ela foi, mas como gostaríamos que ela fosse!».
Mas vamos ao que interessa. Quais as melhores memórias sobre jornais, jornalismo e jornalistas publicadas em Portugal? Aqui fica a minha lista, sem prejuízo de novas entradas e saídas. Notai, gente, que como o blogue é meu e não tenho de dar contas à administração, vou dobrar ligeiramente os critérios quando me aprouver.

1) Uma Hora de Jornalismo (s/a, 1928, Caixa de Previdência do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa)). Livro notável. Já o reli várias vezes. Inclui 45 histórias contadas pela nata do jornalismo do primeiro quartel do século XX. O texto de Ferreira de Castro é precioso; o de Reinaldo Ferreira é assombroso. Gente confiante e segura de si aproveitou para contar peripécias e azares, acertos e falhanços. Um dia, gostava de compilar um livro semelhante sobre os repórteres do início do século XXI.

2) Memórias Vivas do Jornalismo (Fernando Correia e Carla Baptista, Caminho, 2010). Em formato de entrevista. Os dois autores conversaram com 17 jornalistas, todos reformados. É um espelho privilegiado para olhar para o jornalismo da década de 1960 e 1970. Homero Serpa, Joaquim Letria, Mário Ventura Henriques e Acácio Barradas concederam entrevistas memoráveis. O Fernando e a Carla têm mais um lote de entrevistas inéditas, do qual constam por exemplo Aurélio Márcio, Baptista-Bastos ou José Antunes. Espero que o publiquem.


3) Memórias do Esculápio (Eduardo Fernandes, A.M.Pereira, 1930). Esculápio foi um dos mais aclamados repórteres do final do século XIX e início do século XX. Trabalhou em A Pátria, em A Vanguarda e n' O Século, jornal que abandonou certa vez, envolvido num conflito com o director Silva Graça [história completa aqui]. Fundou O Diário, mas voltaria a O Século pouco depois. Repórter de crime, com fama de entrar em qualquer instituição, Esculápio escreveu também gazetilhas famosas na época e foi autor de numerosas peças de teatro. As memórias (que terminam simbolicamente em 1910, embora com a promessa – não cumprida – de um segundo volume) são  divertidíssimas e repletas de anedotas. Conto uma a título de exemplo: a entrada na morgue do Hospital de São José era vedada aos repórteres, mas Esculápio entrava pelo serviço de urgência, com o pretexto de necessitar de algália. Ao ficar a sós com o enfermeiro que tratava dos dolorosos procedimentos, Esculápio recebia ao invés um papel com a identidade dos óbitos de cada noite e pagava ao funcionário a gratificação do jornal. O director do Hospital nunca percebeu como O Século tinha acesso exclusivo à informação sobre os mortos diários, pois Esculápio nunca fora visto na morgue.


4) Uma no Cravo… Outra na Ferradura (Acúrcio Pereira, edição de autor, 1978). Foi uma lenda do jornalismo do século XX. Trabalhou cinco décadas no Diário de Notícias e em O Século. O Galvão Correia contava que um berro do pequeno Acúrcio colocava em sentido uma sala com cem pessoas. Já reformado, Acúrcio publicou estas deliciosas memórias, difíceis de encontrar [devo o meu exemplar à diligência da Livraria Pó dos Livros], mas extraordinárias. Em 1973, quando Mário Zambujal o foi entrevistar para o número de aniversário de O Século, Acúrcio recebeu-o em sua casa. Antes que o repórter começasse a entrevista, Acúrcio disparou: «Olhe que o jornal de hoje diz que eu faço 82 anos, mas são só 81. Ponha lá: oi-ten-ta-e-um!» E só depois começou a entrevista...

5) Os Fragmentos (Ferreira de Castro, Guimarães, 1974). Primeira batota: só metade do livro reporta ao jornalismo, mas são páginas que valem a pena. Em dois textos, o escritor conta como se trabalhava em O Século de Pereira da Rosa (pela última vez, não era meu parente!). Delicioso. É a luta de um jornalista que não quer escrever propaganda, mas que precisa do salário do jornal. De um proprietário que sabe que Ferreira de Castro vende jornais, mas não quer chatices com o poder. O seu relato sobre a reportagem proibida com os mineiros alentejanos deve ser atirado vigorosamente à cara de quem diz, com desfaçatez, que a censura de 1932-1974 era moderada.

6) E agora, José? (José Cardoso Pires, Moraes, 1977). Nova batota. Não é bem sobre jornalismo. É sobre homens que fizeram jornais. Sobre um grande escritor que sonhou com uma revolução e que a viu desvirtuada. Sobre um homem que pedia acesso aos documentos da PIDE e que era olimpicamente ignorado na António Maria Cardoso, onde funcionava a Comissão de Extinção. Se possível, deve ser complementado com o livro-entrevista de Artur Portela (Filho) Cardoso Pires por Cardoso Pires (1991, Dom Quixote).


7) A noite sangrenta (Consiglieri Sá Pereira, Aillaud e Bertrand, 1924). Momento fundador da grande reportagem realista em Portugal, com o jornalista remetido ao papel de narrador não participante, este livro de Consiglieri Sá Pereira sobre a matança  de 19 de Outubro de 1921 em Lisboa é uma obra inesquecível. Inicialmente publicado no Diário de Lisboa, o trabalho chocou os lisboeta pela crueldade dos actos praticados pelos marinheiros inssurrectos, mas nunca foi desmentido. «Venham ver de que cor é o sangue do porco!» – é uma frase que me perseguiu muitas horas depois da leitura.


8) O Tempo e o Espaço em que Vivi. Miguel Urbano Rodrigues, Campo das Letras, 2002-2004). Dois volumes de memórias interrompidas cronologicamente em 1974, embora o autor tenha prometido um terceiro volume sobre a revolução portuguesa. De uma franqueza desarmante, Miguel Urbano recorda o início de carreira no Diário de Notícias, a aventura do Diário Ilustrado (com uma bonita homenagem a Victor Cunha Rego, compagnon de route em São Paulo) e o exílio no Brasil a partir de 1957. Editorialista do Estado de São Paulo, cúmplice de Júlio Mesquita Filho (o Dr. Julinho), director e proprietário do jornal, Miguel Urbano foi forçado à duplicidade: profissionalmente, representou um jornal burguês e situacionista; em paralelo, iniciou os esforços para articular a Oposição democrática no Brasil, provavelmente a força mais coordenada de oposição a Salazar entre todos os exilados. Imperdíveis as recordações de Humberto Delgado, a memória da participação do autor no assalto louco ao Santa Maria e o conhecimento travado com alguns dos revolucionários africanos e sul-americanos que moldaram a história do século XX. A evocação do Diário Ilustrado completa o quadro sobre o episódio dos 15 demissionários do jornal da empresa «do vinho martelado», não faltando ali uma reconstituição dura da zanga que valeu o corte de relações com Jorge Rodrigues, o irmão mais novo da família. 


9) As palavras dos Outros. Baptista-Bastos, O Jornal, 1989). Faço nova aldrabice para incluir de calçadeira um livro que não é propriamente um exercício de memórias do repórter, mas sim uma recolha dos seus trabalhos mais vivos publicados essencialmente no Diário Popular. Durante muitos anos, esta obra foi usada nas aulas de Jornalismo como protótipo do que devem ser reportagens humanizadas, calorosas, por vezes brutais. Baptista-Bastos recupera a sua célebre entrevista com Paul McCartney em 1965, a entrevista de vida com o nadador Baptista Pereira, que inspirara Soeiro Pereira Gomes nos Esteiros e conquistara a glória no Canal da Mancha. Por motivos que talvez um dia aqui publique, perdi-me de amores pela reportagem com o comandante Manuel Zorra. 


10) Diário de um Jornalista, 1926-1930. Maurício de Oliveira, s/editora, 1973). Primeiro volume de uma série de três nunca concluída com as memórias do jornalista que cumpriu grande parte da carreira no Diário de Lisboa, antes de rumar, em 1968, para A Capital, onde chegaria a director. Dirigiu ainda o Jornal do Comércio até falecer subitamente, interrompendo as suas memórias. Livro precioso para compreender o ambiente político, militar e jornalístico imediatamente anterior e posterior ao 28 de Maio de 1926. Iniciando-se no Rebate em Junho de 1926, Maurício de Oliveira cumpriu 46 anos de carreira sempre sob regime de Censura. Fez parte, nas suas palavras, da «geração do silêncio», por oposição à «geração do ruído», que o precedeu. Deixou mais de uma dezena de livros sobre a história naval portuguesa e especializou-se em temas relacionados com a Marinha.


11) Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora, Para a História do Diário Sindicalista A Batalha, 1919-1927 (Jacinto Baptista, Bertrand, 1977). Há outros volumes – até do mesmo autor, no caso de O Mundo – sobre o percurso de um jornal, mas este é, para mim, o melhor nesse capítulo. Jacinto Baptista, veterano jornalista do Diário Popular, do Diário de Notícias, de O Primeiro de Janeiro e de A Voz, descreveu pormenorizadamente o nascimento e morte de um jornal sindicalista que, entre 1921 e 1923, ameaçou o domínio dos dois gigantes de Lisboa – O Século e o DN – com a sua tiragem de quarenta mil exemplares. Baptista teve acesso directo a dois protagonistas relevantes de A Batalha, Pinto Quartim, chefe de redacção (embora os anarco-sindicalistas odiassem as expressões com carga directiva) do periódico, e Manuel Fróis de Figueiredo, administrador (e, por acidente, sogro do próprio autor). Conduziu também entrevistas com outros participantes. O relato é minucioso, as querelas são abundantes. O fim, esse, não poderia ser diferente: o jornal foi fortemente atacado pela Censura e fechou as portas em 1927. Com ele, morreu também uma corrente importante da Primeira República. 


12) Joaquim Letria, Sem Papas na Língua (Dora Santos Rosa, Âncora, 2014). O ano de 2014 constituiu boa colheita para esta lista, com a publicação das memórias de Joaquim Letria e de Antunes Ferreira (ver mais abaixo). Em formato entrevista (já recenseado aqui), Letria recupera o ambiente fervilhante das redacções do Diário de Lisboa, da RTP, de O Jornal e de Tal e Qual. Aborda a sua militância precoce no PCP, alguns conflitos com a PIDE e o mundo da RTP em 1975, repleto de gente «pintada de fresco», na expressão feliz do autor para os recém-convertidos à revolução. Para mim, é sobretudo a sua evocação de figuras como Mário Neves e Vítor Direito que merece destaque. As páginas sobre o jornalista "faz-tudo" na redacção, ora ocupado com os telefonemas dos correspondentes, ora trabalhando no serviço de agenda, ora saindo para o campo, deveriam ser compiladas para divulgação mais abrangente.
13) Vicente Jorge Silva, Conversas com Isabel Lucas (Temas e Debates, 2013). Construídas igualmente como livro-entrevista, estas memórias têm a enorme vantagem de clarificarem alguns períodos conturbados do jornalismo recente, como o processo de fundação do Público ou a relação de Francisco Pinto Balsemão com a equipa redactorial do Expresso. Sem preocupações cronológicas excessivas, Vicente aborda a sua carreira com três etapas fundamentais: na refundação do Comércio do Funchal na década de 1960, nos primeiros anos do Expresso (entre 1974 e 1988) e na primeira década do Público. Livro franco, comenta com acutilância as fraquezas do modelo de ensino universitário do jornalismo (impagável a referência à Universidade Nova de Lisboa das páginas 178 e 179), as fraquezas de carácter de alguns camaradas de imprensa (quem seria o jornalista famoso que, no sismo de Angra de 1980, escrevia sem sequer sair do hotel?) e os defeitos e virtudes dos dois administradores fundamentais que encontrou na carreira – Balsemão e Belmiro de Azevedo. Balsemão disse-lhe certo dia que era impossível aturá-lo. Talvez seja. Mas a leitura destas memórias é indispensável para perceber um dos jornalistas mais relevantes da década de 1980 em Portugal. 


14) À Lareira do Passado (Eduardo Schwalbach, 1944, Edição de Autor). Schwalbach foi jornalista entre as duas últimas décadas do século XIX e a primeira do século XX, intervalando o trabalho nas redacções com a produção teatral. Viria ainda, por um breve período, a dirigir o Diário de Notícias, em substituição de Augusto de Castro, chamado a tarefas diplomáticas. Obra divertida, permite recuperar factos e figuras do jornalismo da monarquia na fase decisiva em que os periódicos adoptaram rumos mais jornalísticos e menos panfletários. Schwalbach conta várias histórias deliciosas (duas delas já reconstituídas aqui). Recupero uma: no Clube do Porto, instituição selecta só franqueada pelos membros, Dom Luís teve oportunidade de exercer o seu aclamado liberalismo. A visita real ao Porto incluía um jantar no Clube, mas a direcção mostrou-se intransigente, informando o soberano que não deixaria entrar profanos na sua actividade. Dom Luís argumentou que, não podendo ir a sua imprensa, também ele não iria – decisão que, naturalmente, desbloqueou a situação. «O Clube sentiu-se esmagado e cedeu: os jornalistas foram convidados, mas – honra lhes seja feita – à ceia, nenhum levou aos lábios um copo nem engoliu uma migalha, por mais instados que fossem pelos directores», escreveu Schwalbach. «A sua presença ali não ia além dos limites de uma reportagem.»


15) Caminhos para uma Revolução (Jacinto Baptista, 1975, Livraria Bertrand). Segunda obra de Jacinto Baptista nesta lista, inclui um precioso diário que o autor – jornalista, chefe de redacção e, mais tarde, director do Diário Popular – foi preenchendo em segredo durante as décadas em que trabalhou sob regime de censura. Reconstitui personalidades e eventos na luta diária para colocar o jornal na rua. Tem a vantagem e a desvantagem de ter sido produzido em 1975, a quente, com os acontecimentos pós-revolução ainda muito frescos. Constitui, nas palavras do autor, o «meu primeiro acto livre de cidadania».
  
16) Visado pela Censura (Norberto Lopes, Aster, 1975). Colecção de ensaios do grande repórter Norberto Lopes, que fundou o Diário de Lisboa e que, no final da década de 1960, refundou A Capital por teimosia. Tem textos preciosos sobre a campanha de Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922 ou a primeira viagem de Salazar a Lisboa, mas falta-lhe estrutura mais densa. Perdeu-se a oportunidade de recuperar a vida no Diário de Lisboa pelo homem que lá passou mais tempo depois de Joaquim Manso. Em compensação, foi lá que li pela primeira vez um resumo de três linhas sobre a história do falso papa português, publicada no jornal O Mundo em 1914 e que conto em Parem as Máquinas!



17) O Diário Acusa – Mais de Mil Horas nos Tribunais (Miguel Urbano Rodrigues, Caminho, 1985). Pode encontrar-se o rasto – mesmo que ténue – da produção de um jornal nas colecções poeirentas das bibliotecas, mas as vicissitudes administrativas e judiciais de um jornal costumam desaparecer no dia em que o último participante expira. No caso de O Diário, jornal fundado pouco depois da Revolução de Abril e inequivocamente próximo do Partido Comunista, Miguel Urbano Rodrigues deixou um testemunho precioso do que foi a vida judicial do periódico e do seu director, frequentemente querelados por personalidades políticas e económicas. Na barra do tribunal, O Diário ganhou e perdeu batalhas com Sá Carneiro e herdeiros, com Ângelo Correia, com Proença de Carvalho, José Júdice, entre tantos outros. Vale a pena ler para recolher impressões sobre o jornalismo do início da década de 1980 e as tentativas de balização da sua intervenção. 

18) O Nosso DN – Memória do Tempo (Fernando Pires, (coord.), JM Edições, 2014). O 150.º aniversário do Diário de Notícias motivou a publicação de várias obras sobre o velho jornal lisboeta – umas boas, outras nem por isso. Este esforço colectivo, coordenado por Fernando Pires, é uma das mais interessantes. Os ensaios não são muito coerentes (José Manuel Ribeirinho, por exemplo, opta por listar secamente a evolução de tipografia e projectos de arte do jornal, enquanto António Castro limita-se a inventariar as provas desportivas que relatou ao serviço do jornal e Fernando Cascais compila iniciativas de formação e sua articulação com os jornais). Há, porém, informação preciosa neste volume. A crónica de Leonel Gonçalves sobre o serviço de arquivo e documentação é minuciosa e servirá de base para futuros trabalhos. Divertido e apaixonado, o texto conta peripécias que mais ninguém conhece, como a circunstância peculiar e irónica de Óscar Paxeco ter preparado a necrologia antecipada do marechal Carmona, falecendo primeiro do que o seu biografado.
O ensaio de Pedro Foyos é divertidíssimo e constitui um repositório – nem sempre ordenado, é verdade, mas bem documentado e contado com humor – de memórias de reportagem. Guardo para o fim o melhor. O ensaio de Maria Augusta Silva é comovente e a melhor homenagem que li ao jornal da Avenida da Liberdade. Entre a queda à saída para uma entrevista com José de Almada Negreiros e o dente partido na véspera de uma entrevista com Lobo Antunes, o «santo espírito DN» fica ali preservado como uma cápsula do tempo.

19) Jornalistas, Pais e Filhos (AAVV, Fronteira do Caos, 2011). 21 jornalistas escreveram neste volume sobre os seus pais, igualmente repórteres noutras épocas e com outros filtros. O volume junta memórias comoventes e é leitura obrigatória para quem procura recuperar fragmentos do jornalismo do século XX. De tantas histórias ali evocadas, recordo uma sobre Nuno Brás, jornalista de rádio e televisão hoje esquecido, mas figura importante da locução desportiva nas décadas de 1970 e 1980 e de quem se diz à boca cheia (embora nunca confirmado por Herman José) que o célebre Esteves foi beber a inspiração. Conta o filho Nuno Moura Brás que, no Mundial de hóquei em patins de 1970 em San Juan (Argentina), pediram ao pai, então na Emissora Nacional, mil dólares para poder transmitir o jogo. Recusou, claro. Chamou os bombeiros, pediu para o içarem pelo exterior até ao topo do pavilhão. «E por um postigo viu o jogo, que relatou em directo agarrado à escada Magirus dos sapadores de Buenos Aires.» Teve azar: foi tema de capa de jornais argentinos e a conta foi parar à embaixada portuguesa. Que a pagou. Porque o hóquei em Portugal era uma religião... Punch line: Portugal perdeu esse Mundial para a Espanha!


20) Memórias de Notícias do Jornal (Frederico Martins, CM Matosinhos, 2008). É um livro difícil de encontrar, pois foi publicado em Matosinhos e não chegou às bibliotecas de Lisboa. E é pena. Já doente, o director do Jornal de Notícia mais bem sucedido depois de Pacheco de Miranda conta nas primeiras 92 páginas as suas impressões sobre quatro décadas no jornal. Seguem-se mais de duas centenas de crónicas recuperadas da última página do JN, onde Frederico Martins Mendes publicava o seu "Bons Dias". Notáveis as evocações das viagens a Londres com Marcelo Rebelo de Sousa. Em breve escreverei sobre «a cacha mais dolorosa» (pg. 30) – o dia em que o JN teve de publicar em manchete a notícia da detenção de um amigo pessoal de Frederico Martins Mendes.  

21) Quem é Quem no Jornalismo Português (s/a, Clube de Jornalistas, 1992). O miolo do livro é uma colecção de retratos e biografias dos repórteres no activo no ano da graça de 1992. Mas esta obra vale pelo prefácio de Jacinto Baptista, uma das poucas memórias publicadas deste repórter notável do Diário Popular. Contém dados relevantes sobre a crise da imprensa com o choque petrolífero de 1973 e memórias divertidas do percurso do repórter em início de carreira em A Voz e O Primeiro de Janeiro. Nunca mais esqueci uma história sobre Acúrcio Pereira, o chefe de redacção de O Século, a quem Jacinto pediu emprego. Segundo Acúrcio, era impossível conciliar o estatuto de estudante com o de jornalista – só em casos excepcionais. E lá foi escada abaixo o repórter recusado.


22) Boémia Jornalística (Jorge de Abreu, Livraria Guimarães, 1927). Contemporâneo de Esculápio, Reinaldo Ferreira ou Silva Graça, Jorge de Abreu trabalhou durante mais de três décadas na imprensa lisboeta antes de aceitar a responsabilidade de chefiar a redacção de O Primeiro de Janeiro. Divertida e bem fundamentada, esta evocação de 162 páginas lembra A Tarde de Urbano de Castro, as Novidades de Emídio Navarro, O Século de Silva Graça e O Pimpão de Morais Pinto. Já aqui lembrei o episódio em que um grupo de dissidentes do jornal de Silva Graça deu uma lição ao seu antigo director, mas estas memórias não se esgotam nessa recordação. É graças a Jorge de Abreu que sabemos um pouco melhor como se viveu o regicídio e a implantação da república nas redacções lisboetas. É neste livro também que se conta o sarilho de 1918, quando O Século de Pereira da Rosa não publicou tarjas negras aquando do assassínio de Sidónio Pais e foi invadido por uma turba violenta.

23) A China Vence o Passado (José de Freitas, Cosmos, 1964). Já escrevi sobre esta enorme reportagem de José de Freitas sobre a China de Mao, então na curva para a Revolução Cultural de 1968. Repórter notável, com grande talento para o detalhe, filho de um grande nome do jornalismo e figura ímpar do Diário Popular, Freitas juntou aqui as suas crónicas publicadas no jornal. Como o dia em que ele pensou ter visto uma explosão nuclear na China.

24) Crónicas das Minhas Teclas (Antunes Ferreira, Prelo, 2014). É uma entrada recente nesta lista e merece aliás um texto à parte (recensão aqui). Redactor, editor e chefe de redacção do Diário de Notícias numa fase decisiva da vida do jornal na década de 1980, Henrique Antunes Ferreira narra, com bom humor, fair-play e profusão de detalhes, episódios notáveis sobre as suas missões como enviado-especial do jornal. A crónica sobre Lech Walesa merecia entrada numa colectânea de memórias jornalísticas (reconstituída aqui). A cimeira da NATO, com o Henrique em cima da mesa para se fazer ouvir, é outra memória preciosa. Foi dos melhores livros publicados em Portugal em 2014.

25) Um Repórter Inconveniente (Aurélio Cunha, Chiado, 2015). Livro recente (já recenseado aqui), é, por ora, o único registo de memórias de um jornalista de investigação em Portugal. Género romantizado pela ficção e pela ideologia profissional, não teve melhor intérprete do que Aurélio Cunha, repórter sobretudo do Jornal de Notícias (JN). O livro recupera denúncias célebres, alguns (poucos) fracassos e várias lições sobre a morosa arte de recolha de informação privilegiada junto de fontes indecisas. Aurélio Cunha terá sido o primeiro, antes mesmo de Carlos Cal Brandão assumir as funções de consultor jurídico do JN, a submeter as suas propostas de artigos a advogados, limando pontas soltas e palavras mal sustentadas. Lê-se de um fôlego, mas com um amargo de boca: Aurélio Cunha teve de pagar para investigar, trabalhou nos tempos livres, foi forçado a inventar baixas clínicas. Como resultado, nasceram mais de vinte histórias bem sucedidas na capa do seu jornal.

26) Memórias da Memória (Ribeiro dos Santos, Rolim, 1986). Jornalista durante 33 anos, entre 1925 e 1958, José Ribeiro dos Santos foi autor destas memórias dois anos antes do seu falecimento. É um livro honesto, algo desencantado, mas muito revelador sobre o jornalismo no Rebate, na República, no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias, onde cumpriu uma última missão jornalística logo após a revolução de 1974, dirigindo o jornal imediatamente antes de Victor Cunha Rego. É neste volume que Ribeiro dos Santos revela peripécias da sua entrevista com Winston Churchill em 1939 [história completa aqui]. É nesta obra que a Censura e os militares nela destacados ganham vida e cores realistas, sobretudo face a tanta desinformação e exagero retórico. Destaque ainda para pormenores sumarentos sobre os primeiros anos do grupo-embrião que viria a fundar o Partido Socialista em 1973.

27) Televisão e Censura (Mário Castrim, Campo das Letras, 1997). Oportunidade rara para medir a extensão e a arbitrariedade da acção da Censura na década de 1970, este volume de Mário Castrim, o mais proeminente crítico de televisão do século XX, recorda quatro anos de "Canal da Crítica" no Diário de Lisboa. Entre 1970 e 1974 (termina nove dias antes da revolução de Abril), Castrim republica a sua coluna, juntando-lhe os cortes diligentemente feitos pelos coronéis da Censura. No prefácio, resume a sua intenção: «O que trabalhei de melhor não está no que foi publicado. Ninguém se dará conta, lendo as críticas, do que foi a luta corpo a corpo, do que foi a alma gasta em cada frase, a busca da palavra capaz, a invenção do gesto, da finta, da negaça (…) Ah, dizia eu, se fosse possível recuperar o que me roubaram, então sim, então talvez valesse a pena a publicação.»

28) Diário Político (Raul Rego, Edição de Autor, 1969). Um diário de alguns meses de 1969 onde Raul Rego, então no Diário de Lisboa e colaborador do Jornal do Comércio, anotou as escaramuças diárias produzidas pela Censura. Menos completo do que o projecto idêntico de Jacinto Baptista, tem o mérito de apresentar documentos importantes sobre o regresso do bispo do Porto a Portugal, as eleições de 1969 ou as célebres entrevistas de Marcelo Caetano e Salazar ao jornal francês L'Aurore

29) As Minhas Memórias de Jornalista (António Cabral, Edições Gama, 1949). Curioso volume de um jornalista e político que trabalhou na imprensa desde a última década e meia do século XIX até ao final da I República. Monárquico convicto, Cabral comenta vícios e virtudes dos grandes nomes da imprensa oitocentista. É impagável a sua definição peculiar do que deve ser um jornalista (pg. 24). É ele também quem conta a história da reacção dos jornalistas de Lisboa ao famigerado projecto da Lei de Imprensa de 1907, que cerceava as liberdades de expressão. Revoltaram-se os jornais da oposição e prometeram a pena do silêncio para todos os políticos envolvidos na discussão ou defesa do projecto: «Poderiam eles casar, falar, morrer – os jornais da oposição não lhes escreveriam os nomes, não lhes fariam a mais leve referência. Era o silêncio a adensar-se em volta dos réprobos!»


30) Nos Bastidores do Jornalismo (Rafael Ferreira, Romano Torres, 1946). Foi um dos repórteres de “mundanidades”, o nome que então se dava à crónica de vida social. Traça frescos suaves (demasiado suaves) da sociedade da primeira metade do século, mas contém informação que, com frequência, me é útil. Repórter sem grande rasgo, Rafael Ferreira foi um dos jornalistas que mais tempo dedicou a O Século.


31) Memórias de um Ano de Revolução (Nuno Rocha, Somuna, 1975). Rocha escreveu quatro livros sobre jornalismo e um (Jornalismo como Romance, 1983) até tem pretensões de registo oficial de memórias. Prefiro este, escrito em 1975, com a revolução ainda fresca e com o objectivo claro de abrir caminho para o seu O Tempo. É um retrato que não pode ser dissociado do ano de produção, pois duvido que Rocha subscrevesse, cinco anos depois, tudo o que aqui escreveu. Regista por exemplo que «conspirara abertamente contra a guerra colonial» e fala dos «palhaços dos capitalistas portugueses». Mas, pelas palavras de um homem desalinhado, descobrem-se também os percursos sinuosos de alguns homens dos jornais nestes anos quentes. Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Quina, Manuel Agrela ou Adelino Cardoso não ficam bem na fotografia.

32) Reportagem (Luiz Teixeira, Paulo Guedes, 1931). Junta no mesmo livro reportagens do autor na Madeira e nos Açores. Excelente repórter, com facilidade para a descrição de ambientes e pessoas, Teixeira trabalharia ainda mais três décadas em jornais. No livro, advoga que as mulheres da ilha Terceira deveriam candidatar-se a Miss Mundo. E, se bem me lembro, exalta a capacidade dos madeirenses para a poupança: uma década depois da passagem dos aviadores Sacadura Cabral e Gago Coutinho pelo arquipélago, continuavam a usar as bandeirinhas então distribuídas para saudar o grande feito da gesta lusitana...


33) Os Mortos Falam (Artur Portela, Inquérito, 1943). Reconheço nova batota: é um livro de memórias, mas em segunda mão. Artur Portela recupera aqui figuras do jornalismo e da política portuguesa do último quartel do século XIX e do primeiro do século XX, contando com a memória emprestada de sobreviventes desse tempo (o autor nasceu em 1901) e com acesso importante a acervos como o da Fundação Casa de Bragança. Apesar disso, é um livro notável. Foi aqui que descobri as sete vidas de Hermano Neves, jornalista que fez viagens de balão, calcorreou a frente de combate de 1916, imitou Phileas Fogg numa viagem falhada à volta do mundo, caiu doente em África e foi salvo por mezinhas locais. Ou que Emídio Navarro nunca perdoou a Eça uma representação sua (ou pelo menos que tomou como sua) n'Os Maias – o jornalista trôpego e de princípios pouco firmes.


34Hermano Neves, a Grande Reportagem (Norberto Lopes, Bertrand, 1985). Volume simples, de poucas páginas, mas muito eloquente sobre o grande repórter da Primeira República – Hermano Neves, pai de Mário Neves, futuro director-adjunto do Diário de Lisboa e de A Capital. Norberto Lopes faz as despesas do comentário, evocando a carreira do único repórter português que subiu em balão aos céus e desceu de submersível aos fundos marinhos. Afinal, como Norberto Lopes refere, «Hermano Neves foi um dos maiores jornalistas portugueses de todos os tempos». Já aqui contei uma das suas proezas menos conhecidas.


35) Memória de uma Mulher de Letras (Manuela de Azevedo, Afrontamento, 2009). Aos 99 anos, Manuela de Azevedo, a primeira jornalista portuguesa com carteira profissional, assinou estas memórias sobre a sua vida no jornalismo, no teatro, na poesia e no ensaio. Logo de chofre, a autora avisa que redige este documento «sem fichas ou arquivos», ao sabor da memória e sem acuidade visual, o que transforma a leitura num exercício complexo, à medida que a acção saltita de década para década. Há compreensíveis lapsos de memórias (Fernanda Reis, por exemplo, distinguiu-se na guerra da Correia e não do Vietname, pp. 123; Urbano Carrasco nunca chefiou a redacção do Diário Ilustrado (111)o cargo em causa foi desempenhado por Miguel Urbano). E são lançadas acusações muito duras sobre Carvalhão Duarte (56), Artur Portela (94), Félix Correia (83) ou Mário Neves (121). O teor das recordações sobre Augusto de Castro ou Almeida Santos terminariam provavelmente em processos judiciais, não fosse a autora uma provecta centenária. Em contrapartida, as evocações sobre o "furo" jornalístico com Ernest Hemingway [que não consigo situar no tempo] ou com o rei Humberto, de Itália [história completa aqui], são deliciosas e justificam a leitura.


36A Cambada (Vera Lagoa, Intervenção, 1978). Dos cinco livros redigidos por Vera Lagoa (pseudónimo jornalístico de Maria Armanda Falcão), este será o mais popular e o mais autobiográfico. Nas primeiras cinquenta páginas, a autora evoca a sua carreira jornalística, inaugurando a crítica mundana na inovadora coluna de "Bisbilhotices" do Diário Popular a partir de 1966, depois continuada no Diário de Lisboa com menos sucesso, e abraçando uma nova fase, após a revolução de Abril, à frente dos destinos de O Diabo, O Sol, O País e novamente O Diabo. São memórias cáusticas que valeram dezenas de processos à autora, mas isso não torna as acusações necessariamente falsas. Manuela de Azevedo (pg. 43), Francisco Sousa Tavares, «o Tareco» (pg. 45), Nuno Rocha, ou «Nunocha» (pg. 18 e 48) e Mário Castrim (pg. 47) são ali visados com virulência.

37Outro tempo, outra cidade (Mário Ventura, Editorial Notícias, 1977). Livro peculiar, amargo e muito focado na experiência política do jornalista Mário Ventura Henriques durante a breve interrupção democrática do Estado Novo no Outono de 1969. Ventura foi então candidato derrotado contra as listas do governo. De permeio, o autor recupera fragmentos da sua vivência nos jornais. Recupero duas passagens significativas da sua amargura face ao jornalismo praticado no seu tempo: «O pior momento do dia é aquele em que o jornal nos chega às mãos. Aguarda-se com impaciência e já se detesta aquilo que sabemos ir encontrar, um jornal igual ao de todos os dias, insípido e mentiroso, que se folheia em dois ou três minutos e cai para o lado com um gesto de enjoo e repugnância.» Noutra ocasião, Ventura recorda uma reportagem de quinze dias no seu amado Alentejo, liminarmente recusada pelo chefe de redacção, com a pergunta: «Olha lá, rapaz, julgas que eu tenho tempo para brincadeiras? Onde pensas tu que estás para me trazeres uma coisa destas?» O repórter abana os ombros, «de forma que ele perceba» e abala para a secretária, com um resmungo que bem poderia simbolizar toda a frustração de uma carreira passada entre balizas artificiais de repressão: «Afinal, para que perdi eu tempo e disposição a escrever esta merda? Nem sequer me interessava provar fosse o que fosse, a quem quer que fosse, e muito àquele pequeno bonzo…»
38Notas da Minha Vida e do Meu Tempo (Homem Cristo, Guimarães, 1937). Em sete volumes repletos de acusações e críticas, Homem Cristo, republicano dos primeiros anos do Directório, jornalista em O Século, Debates e O Povo de Aveiro, acerta contas com os companheiros de trincheira do final do século XIX. Elias Garcia, João Chagas, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga (mais protegido, apesar de tudo) são aqui visados com fartos pormenores. Magalhães Lima e Silva Graça, personalidades marcantes do primeiro quartel de O Século, também. Foi pela designação com que Homem Cristo brindou o seu capitão no exército que ouvi pela primeira vez a divertida expressão «grande irmão da irmandade do Copofone» para designar uma bebedeira crónica. Foi nestes volumes que tomei conhecimento desta história. Infelizmente, o jornalista termina as memórias com o regicídio de 1908, privando-nos de comentários sobre a Primeira República.


39Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco (Nuno Costa Santos, Tinta da China, 2012). Não há muitos volumes assim em Portugal: é uma obra de homenagem a um grande jornalista, redigida postumamente (Assis faleceu em 1995) com um cuidado extremo de biógrafo prudente. Nuno Costa Santos ouviu dezenas de personalidades e joga com esses contributos, intercalando-os num texto sem excessiva orientação cronológica, estruturado em função dos diversos papéis que Fernando Assis Pacheco foi desempenhando na sua carreira. A recolha textual (de entrevistas, alguns recortes e depoimentos publicados) não foi tão exaustiva como o processamento de entrevistas – se pudesse arriscar, diria que o autor encontrou uma caixa de recortes compilada pelo repórter ou familiares e usou-a à medida das necessidades. Lê-se de um fôlego e cumpre a função mais importante: presta homenagem a um dos mais versáteis profissionais do jornalismo português das décadas de 1960, 1970 e 1980. 


40A Chacina de Bajadoz (Mário Neves, Cadernos O Jornal, 1985). É mais uma batota que aqui faço: esta obra, publicada em meados da década de 1980 (teria sido impossível antes de 1974), é a memória de uma reportagem e não de um repórter. É porventura o trabalho jornalístico mais famoso do século XX da autoria de um português. Em Agosto de 1936, Mário Neves, recém-formado em Direito, acompanhou entre Badajoz e Elvas um dos massacres da guerra civil espanhola, após a conquista por parte das tropas falangistas da cidade. Registou a sua observação numa série de reportagens publicadas no Diário de Lisboa e que não despertaram, inicialmente, desconfiança da Censura. Nas décadas seguintes, dentro e fora de portas, Neves foi vilipendiado e acusado de se ter baseado nas observações de terceiros. Só depois da abertura política dos dois regimes ibéricos foi confirmado, para lá de qualquer dúvida legítima, que o repórter fora objectivo e correcto. Só por isso merece figurar nesta lista. 


41Em volta da minha profissão (Alexandre Vieira, Edição de Autor, 1950). Nesta compilação, é o único livro oriundo de um sector fundamental na história do próprio jornal – a tipografia. Obra de culto para o estudo da génese do movimento operário e sindicalista em Portugal, estas memórias de Alexandre Vieira têm de ser lidas à luz do contexto em que puderam ser publicadas, num regime de censura. Vieira recorda velhas campanhas de luta por direitos sociais, como a célebre greve de 1904 que terminou com um dos primeiros lock-outs da história do trabalho em Portugal. Revisito um episódio: o actor Afonso Taveira, antigo tipógrafo e então responsável por uma companhia teatral que arrendava o Teatro da Trindade, solidarizou-se com o movimento e cedeu a sala aos compositores para as reuniões de protesto. Foi discriminado a partir de então pelas empresas jornalísticas, no outro lado da barricada, que se recusavam a publicar «anúncios e reclamos» das suas peças no Trindade. 

43Heróis Anónimos, Jornalismo de Agência, Volume I (Wilton Fonseca e Mário de Carvalho,  Perfil Criativo Edições, 2016). É a primeira entrada de uma obra de memória sobre as agências noticiosas em Portugal. Existem mais dois livros sobre o tema – os volumes de memórias de Luís Carlos Lupi, fundador da Lusitânia, e o volume de Wilton Fonseca sobre a história dessa agência –, mas este volume é, de longe, o mais completo sobre o tema. Passa em revista exaustivamente o processo de fundação da ANOP, criada a partir dos cacos da ANI e da Lusitânia, mas com uma orientação moderna e autónoma. As suas dificuldades de percurso e a posterior fundação da NP merecem particular atenção dos autores, como aliás já referenciei em recensão neste blogue.

Fica a lista, já com mais de quatro dezenas de obras. Completem-na se vos parecer que cometi injustiças.

domingo, janeiro 11, 2015

A caixa de Pandora dos desastres naturais



Acabei agora de ler “Disasters and the Media”, obra de síntese de Mervi Pantti, Karin Wahl-Jorgensen e Simon Cottle sobre este campo fascinante da representação jornalística dos desastres. Como quase tudo o que Cottle publicou, é exaustivo e passa em revista os contributos importantes sobre as várias dimensões do tema.
Aborda as tragédias na era da televisão e a impossível missão jornalística de conciliar padrões profissionais de equilíbrio, distância e objectividade com a realidade crua do Haiti’10, de Bam’04, de Sechuan’08 ou de Paddington’96. Reflecte sobre a ânsia que nos consome face a estes registos de incerteza manufacturada que nos entram pela sala adentro e que nos motivam a exigir culpados e a atribuir culpas. Por fim, não esconde que a profusão de cidadãos-jornalistas entre membros do pessoal de socorro, vítimas, sobreviventes e testemunhas anónimas tem criado uma cacofonia de som e imagem difícil de gerir, provocando atrito no monopólio que os media tradicionais tinham para mediar estas crises.
Foi com grata surpresa que detectei uma investigadora portuguesa citada abundantemente na obra, no capítulo sobre a era das tragédias globais. Sem favores nem falsos patriotismos, é gratificante verificar que a obra de Helena Murteira, da Universidade de Évora, galgou fronteiras e fornece elementos úteis para contextualizar o grande sismo de Lisboa de 1755 no quadro desta questão. Murteira chama-lhe “o primeiro grande acontecimento da história” – acontecimento no sentido jornalístico, na medida em que a ocorrência foi transformada em notícia por toda a Europa e América do Norte e mobilizou/escandalizou jornalistas, políticos e pensadores.
Murteira argumenta também que data de 1755 o princípio das respostas a emergências coordenadas pelo Estado, uma determinação evidente no século XXI, mas profundamente revolucionária para o século XVIII. Nasceram também em Lisboa, em 1755, as primeiras demonstrações transnacionais de solidariedade e oferta de apoio que ainda hoje sucedem na sequência de grandes desastres. De muitas maneiras, o sismo de 1755 foi o primeiro desastre moderno.
A esta linha de raciocínio, Paanti e colegas juntaram um dado adicional: foi o sismo de 1755 que constituiu a divisória fundamental na compreensão colectiva dos desastres naturais e das forças que os causam. Com o infausto evento de Lisboa, terminou definitivamente o paradigma do desastre como punição para os pecados humanos. E abriu-se espaço para o confronto entre a responsabilidade da agência humana e da aleatoriedade natural na profusão de desastres. A caixa de Pandora do risco abriu-se para nunca mais ser fechada: se não temos influência nos desastres, se nada podemos fazer para os prevenir, mais vale, como o “Cândido” de Voltaire, assumir essa imprevisibilidade e não descurar o cultivo do nosso jardim...
A ler, se tiverem oportunidade.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

E o agricultor continua a lavrar...

"Paisagem com a Queda de Ícaro"
Museu Real de Belas-Artes da Bélgica


Ontem, foram quase tão populares as mensagens de empatia com o “Charlie Hebdomaire” como as mensagens de repulsa pelas correntes electrónicas de solidariedade fácil. Daqui a uma semana, o trigo estará separado do joio e só os verdadeiros fãs do “Charlie” (e de Wolinsky, e de Charb) lamentarão o golpe rude na qualidade e (esperemos que não) na sobrevivência da revista.
Há um provérbio flamengo para estas ocasiões: “E o agricultor continua a lavrar…”, simbolizando a vida em constante progressão e o distanciamento egoísta face aos dramas dos outros. Lembrei-me do óleo “A Queda de Ícaro” atribuído a Bruegel [pode não ser dele, mas isso são outros quinhentos]. É um dos mais extraordinários quadros do século XVI, sobretudo porque representa o acto através da quase ausência.
Ícaro foi queimado pelo Sol e destruído pela sua ânsia de voar cada vez mais alto, mas não está no quadro. Ou melhor: está. No canto inferior direito, junto da embarcação, estão as suas pernas. O resto do corpo já está submerso. Como um fotógrafo distraído, Bruegel escolheu representar os segundos que se seguiram à queda e não propriamente o contacto das asas de cera com o calor do Sol.
E o que fazem os seres humanos nesta representação? Um, em terceiro plano, procura em vão lançar um anzol que possa “pescar” o infeliz aprendiz de deus; em segundo plano, um pastor mira os céus, sem se aperceber de que Ícaro já tombou; e em primeiro plano, um agricultor ignora olimpicamente o drama e continua a lavrar.
E o leitor: que papel escolhe?

sábado, janeiro 03, 2015

Morreu o Victor Galvão Correia (1936-2014).


A equipa que fazia "O Século" em 1973, num mural do caricaturista Baltazar.
Galvão Correia está na lombada, ao centro, com óculos de massa. Entre camaradas. Como ele gostaria.
Morreu o Galvão. Não há ninguém a quem eu mais deva profissionalmente. A Universidade Nova de Lisboa ficou com o crédito da minha formação jornalística, mas, na verdade, foi na tarimba, na “trincheira” como ele gostosamente definia o trabalho de redacção, que me formei.
Aprendi regras empíricas que ele próprio colhera na escola de jornalismo que foi “O Século”. Ainda hoje, dou por mim a escolher, entre duas fotografias que representem o público de um espectáculo ou uma conferência, a que tem mais gente. “Mais pessoas vão comprar o jornal amanhã”, dizia ele, num testemunho vibrante sobre o que os jornais significam para cada leitor. E se ele amava os jornais!
Teimámos algumas vezes (as legendas levam sempre ponto de final, chefe! Aliás, pus um no título deste texto só para chatear)! Concordámos muitas mais. Admirava o talento dos grandes repórteres, talvez porque essa não era a sua especialidade. Galvão Correia era o mais extraordinário organizador do caos com quem eu já trabalhei. A hora do fecho aproximava-se, gritavam-se ordens contraditórias, as paredes tremiam, mas a sua mesa era um oásis de planeamento. Com ele aprendi também a guardar peças no “frigorífico”, materiais intemporais prontos a serem publicados caso alguma coisa falhe. 
Era um jornalista da velha guarda, sem meias-palavras nem rodriguinhos. Quando a ocasião o justificava, rugia como uma fera. Uma das primeiras lições que com ele aprendi foi a perseverança. Ninguém chegava à mesa do Galvão sem o serviço concluído. Simplesmente, não era uma opção. É algo que as faculdades nunca entenderão, nem conseguirão explicar. Em jornalismo, não se falha um serviço. Não ficam páginas em branco por culpa do azar. Duas ou três descomposturas do Galvão vacinavam qualquer repórter. 
Gostava de reportagem. Foi com ele que nasceu a série que venho fazendo no blogue sobre grandes episódios do jornalismo português. Num almoço há dois ou três anos, pediu-nos (aos que estavam à mesa) os nomes dos melhores repórteres portugueses. Surgiram os nomes de sempre: Adelino Gomes. José Manuel Barata-Feyo. José Pedro Castanheira. Baptista-Bastos. Indignou-se. Ninguém referiu Urbano Carrasco. Definiu-o como um dos melhores do século XX, apesar de Carrasco se posicionar no pólo oposto ao dele. Na política, nas amizades e até no “Popular”, velho rival de “O Século”. Mas, na hora de reconhecer talento, o grande leão era justo. Da pesquisa subsequente sobre quem foi Urbano Carrasco e o que ele escreveu, nasceu esta história. E as seguintes.
Admirava a crónica desportiva. Dizia aliás que o desporto era o último bastião do cronista, mesmo se a televisão matou parte do encanto da descrição verbal de um jogo de futebol. Vibrava com o adjectivo e a metáfora em letra de imprensa, a analogia poderosa construída na máquina de escrever ao domingo capaz de permanecer no imaginário do adepto durante toda a semana. Defendia os jornalistas do desporto face às críticas externas dos outros, “os nabos que provavelmente nunca escreveram uma crónica”. Tinha e tem razão.
Trabalhou sempre por paixão. Em “O Século”, de onde saiu com mágoa, como toda a gente que ali trabalhou e sentiu o fim de um jornal que “não tinha de acabar”. Entrou de cabeça em “O Diário”. No “Sporting”. Na “Gazeta dos Desportos”. Na revista “Mundial”. Dava gargalhadas contagiantes. Contava histórias antigas. Sobre o dia em que Matateu lhe disse que, se não há dinheiro não há palhaços e portanto não jogava mais; ou sobre o dia em que a redacção de “O Século”, farta de tanto snobismo de José Mensurado, lhe palmou a máquina de escrever que ele trouxera de Londres e que gabava mais do que um filho. “Ainda a tenho”, rematava essa história com uma gargalhada sonora e uma palmada vigorosa nas omoplatas, daquelas que desconjuntavam o esqueleto.
Envolveu-se na política, como creio que todos os que viveram nos jornais entre 1974 e 1976 fizeram. Não poderia ser de outra maneira. Contagiou-me. Ensinou-me. Atribuiu-me funções editoriais aos 21 anos. “Tu aguentas, puto!” Não me deixou interromper o curso universitário, pouco mais do que inútil, e atirava-mo muitas vezes à cara, sobretudo quando lhe contei que o mestrado também já estava concluído. E o doutoramento. Palmada vigorosa na omoplata. “Eu não te disse?”
Morreu o meu amigo Galvão Correia, um homem dos jornais! Com quem vou agora conversar?