quinta-feira, janeiro 05, 2017

Como Vasco Granja desvendou parcialmente um mistério de Blake e Mortimer

Dedicatória de Edgard Jacobs a Vasco Granja, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)
De férias nos Açores, destino turístico recém-descoberto pela burguesia europeia após os horrores da Segunda Guerra Mundial, o professor Mortimer faz uma descoberta espantosa: no foro do Diabo, um pequeno golfo na zona das Sete Cidades (ilha de São Miguel), detecta um metal desconhecido com propriedades radioactivas invulgares. Convoca de imediato o seu amigo, o capitão Blake, e juntos, penetrando numa caverna vulcânica micaelense, desvendarão o segredo da civilização Atlântida, resguardada na tranquilidade dos Açores – desfecho, aliás, que uma legião de maluquinhos continua a tentar impingir-me semanalmente na revista onde trabalho.
O enredo, publicado em pranchas semanais a partir de Abril de 1957 (e mais tarde reunido em álbum, O Enigma da Atlântida), constitui um dos êxitos mais celebrados dos aventureiros Blake e Mortimer, criações de banda desenhada do belga Edgard Pierre Jacobs (1904-1987). Mas onde se inspirou Jacobs para um dos seus mais populares guiões?

Uma das vinhetas de O Enigma da Atlântida. As duas lagoas das Sete Cidades.
(Público/ASA)
Em Outubro de 1972, o mais extraordinário divulgador de banda desenhada entre nós, Vasco Granja (1925-2009), entrevistou-o para a revista Tintin. De feitio reservado, refugiado na sua propriedade em Lasne en Brabant, Jacobs não concedia muitas entrevistas – menos ainda para os representantes de um país sem grande tradição no género e de que conhecia apenas (por admissão própria) o extinto Cavaleiro Andante e o desenhador Fernando Bento (que aliás elogiou: «Ficava-se com a ideia de que conhecia o vestuário de outras eras do povo português.»)
Como bom repórter, Granja torturou o responsável de Relações Públicas da revista Tintin, Jean Paul Vander Elst, e obteve o exclusivo. Antes, já pedira também a intermediação de Hergé, velho mestre de quem Jacobs fora assistente em Bruxelas. Hergé considerava Jacobs um misto entre Mortimer e o seu capitão Haddock. 
Há uma certa aura quando Jacobs entra na sala onde Granja já o espera, «dando a impressão de estar numa sala de espectáculos. (…) É uma autêntica encenação teatral (não esquecer que o grande desenhador teve uma brilhante carreira como intérprete lírico)». Repórter minucioso, Granja regista o aparato da entrada cénica, «como se aguardássemos as três pancadas de Molière».

Parte 7 da entrevista, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)

A entrevista, partida em sete capítulos (publicados entre a série XI e XII da revista), é um jogo de xadrez. Granja elogia Jacobs e quer extrair dele os segredos criativos; Jacobs contra-interroga, numa espécie de exame de aptidão daquele homem peculiar, de óculos de aros largos, proveniente do país com «um povo corajoso», «pequenos mosaicos de cores diferentes [azulejos]», mas pouco mais. A certo momento, num jogo de espelhos peculiar, é o belga quem faz perguntas sobre o estilo de banda desenhada mais comum em Portugal, as dificuldades de adaptação de enredos e peripécias culturais francófonas ou até as preferências de Granja sobre o processo criativo e a hierarquização de funções entre desenhador e guionista.
O Enigma da Atlântida aflora à conversa. O guião inicialmente previsto para a aventura incluía discos voadores, mas outro ilustrador com colaboração prevista para o mesmo número da revista já os integrara na sua narrativa e Jacobs, cavalheirescamente, cedeu. O belga interessou-se então pela Atlântida, revisitando o mito que, desde o século XVIII, sugere que o arquipélago açoriano seria o destino final desta civilização perdida.
«Oh, sabe lá, tive tanta dificuldade em reunir documentação para essa história», contou. «Hoje, teria sido mais fácil.» Jacobs gabava-se de um processo documental único entre os seus pares e a história nos Açores não fugiu à regra. São conhecidas várias rábulas sobre a obsessão do belga com os mais ínfimos pormenores que reproduzia depois nas pranchas. Nos Açores, ficou sempre a dúvida sobre se Edgar Jacobs efectivamente visitou o arquipélago, pois os seus blocos de notas e memórias são omissos relativamente a essa questão, mas as pranchas que decorrem à superfície das Sete Cidades são particularmente minuciosas e correctas.
Granja questionava. Jacobs desviava a conversa: «Posso oferecer-lhe alguma coisa para beber? Não tenho vinho do Porto, mas talvez aceite um uísque.»
Mais à frente, volta-se ao tema. Infelizmente, sem certezas.
Interpretando literalmente a resposta final de Edgard Jacobs, fica a ideia de que a visita do desenhador a São Miguel foi posterior à publicação do álbum. «Eu não tinha conseguido obter a indispensável documentação acerca dos Açores quando andava a preparar O Enigma da Atlântida. A cratera das Furnas [Jacobs referia-se às Sete Cidades] deixou-me uma profunda impressão. Na água do lago, pode[m] observar-se duas cores diferentes: uma azul e outra verde, o que é bastante espantoso.» E foi tudo!
Vasco Granja em imagem do Gato Alfarrabista
O homem que se gabava de ter sido o primeiro na Bélgica «a tentar fazer em banda desenhada qualquer coisa de sólido em vez de imaginar cenários fantasistas como no teatro», não chegou a esclarecer como se documentou para reproduzir fielmente a Lagoa Azul e a Lagoa Verde.
     Vários biógrafos e fãs de Jacobs não acreditam que o belga tenha de facto visitado os Açores no início da década de 1950 para se documentar, mas, em São Miguel, a sua figura ainda é lembrada. O vulcanólogo Victor Hugo Forjaz conta que, nas memórias da ilha micaelense, ainda há quem se lembre do belga «numa descida juliovérnica que se realizou na Povoação e terminou numa caverna sem saída», seguida de uma visita às Sete Cidades. A imaginação do desenhador e guionista faria o resto, estabelecendo ligações subterrâneas entre o território. «Terá então sido guiado pelo jornalista, director de uma loja de turismo e radialista Silva Junior (1912-1995)», acrescenta o cientista, que homenageia este mês a aventura de Blake e Mortimer que percorreu mundo e celebrizou as Sete Cidades.

Dedicatória de Edgard Jacobs a Vasco Granja, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)
Nunca mergulhei na Lagoa das Sete Cidades, objecto do excelente Vulcão das Sete Cidades – Um Guia, obra agora publicada nos Açores com coordenação de Victor Hugo Forjaz e do Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores e apoio da Câmara Municipal de Ponta Delgada.
Porém, ontem, em conversa amena com este amigo, sábio da vulcanologia, memória viva dos Açores e… testemunha bem humorada de erupções reais, fictícias e imaginadas-para-ministro-ver, veio à baila esta saga de Blake e Mortimer passada em São Miguel. Rimo-nos com a recordação do final da aventura de Jacobs. Na banda desenhada, Jacobs abre a Lagoa para deixar passar foguetões em direcção ao espaço, antes de a voltar a selar com a configuração de sempre, como se nada tivesse acontecido.

Na impossibilidade (para já) de comprovar que Edgard Jacobs visitou de facto os Açores antes de desenhar O Enigma da Atlântida, resta-me sugerir a leitura deste novo guia sobre um dos monumentos naturais mais espantosos de São Miguel. Com menos ficção e mais ciência, com menos atlantes e mais açorianos, é uma obra fascinante e há muito necessária.

Nota final: este artigo é devedor da sabedoria e partilha de informação do blogue Nerdenthal, que compilou uma valiosa lista de textos de Vasco Granja sobre banda desenhada, o amor da sua vida.

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