quinta-feira, janeiro 05, 2017

Como Vasco Granja desvendou parcialmente um mistério de Blake e Mortimer

Dedicatória de Edgard Jacobs a Vasco Granja, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)
De férias nos Açores, destino turístico recém-descoberto pela burguesia europeia após os horrores da Segunda Guerra Mundial, o professor Mortimer faz uma descoberta espantosa: no Foro do Diabo, um pequeno golfo na zona das Sete Cidades (ilha de São Miguel), detecta um metal desconhecido com propriedades radioactivas invulgares. Convoca de imediato o seu amigo, o capitão Blake, e juntos, penetrando numa caverna vulcânica micaelense, desvendarão o segredo da civilização Atlântida, resguardada na tranquilidade dos Açores – desfecho, aliás, que uma legião de maluquinhos continua a tentar impingir-me semanalmente na revista onde trabalho.
A aventura açoriana está repleta de pormenores e descrições plausíveis, embora, aqui e acolá, a ficção ganhe terreno ao realismo. Mortimer aterra no aeroporto civil de Sant'ana, perto de Rabo de Peixe – um aeródromo militar muito útil durante a guerra de 1939-45, depois transformado em porta de entrada na ilha para a aviação civil, assim se mantendo até à construção do novo aeroporto, perto da Relva, em 1969. 
O aventureiro instala-se numa Quinta do Pico, propriedade apalaçada que só existiu na imaginação do autor. Concebido perto da Povoação, nunca tal edifício existiu na ilha, mas, em 1984, Claude le Gallo, um dos biógrafos da personagem da nossa história, descobriu que a inspiração fora colhida nas páginas da National Geographic (número de Abril de 1955): a Quinta do Pico é, afinal, uma cópia da Residência Mansfield, no estado de Ohio (EUA). 

Em cima, a fotografia publicada na edição de Abril de 1955 da National Geographic (Residência Mansfield).
Em baixo, vinheta da "Quinta do Pico", onde estava alojado Mortimer (Público/ASA). A primeira inspirou o autor.

O inexistente jornal A Mundial. (Público/ASA)

       O roubo perpetrado nessa propriedade é depois noticiado num periódico inexistente – A Mundial – e lido por dois cavalheiros numa unidade hoteleira igualmente desconhecida – o Hotel Central de Ponta Delgada. Há ainda um erro aborrecido, este resultante da lendária desconcentração dos ilustradores. Quando o Príncipe Ícaro explica aos exploradores a deriva geológica que justifica a sobrevivência da Atlântida, apresenta-lhes um mapa que, na edição original francófona, identificava a América do Sul no hemisfério norte! O erro foi corrigido nas edições subsequentes. 



O erro da edição original, com a indicação de "América do Sul" no canto superior esquerdo.
A versão corrigida na edição portuguesa (Público/ASA)
       Apesar das pequenas incongruências, a quarta aventura de Blake e Mortimer tem uma história para contar.
       O enredo, publicado em pranchas semanais na revista Tintin a partir de 19 de Outubro de 1955 (e reunido em álbum, O Enigma da Atlântida, em 1957), constitui um dos êxitos mais celebrados dos aventureiros Blake e Mortimer, criações de banda desenhada do belga Edgard Pierre Jacobs (1904-1987). Mas onde se inspirou Jacobs para um dos seus mais populares guiões?


Uma das vinhetas de O Enigma da Atlântida. A  lagoa das Sete Cidades.
(Público/ASA)
Em Outubro de 1972, o mais extraordinário divulgador de banda desenhada entre nós, Vasco Granja (1925-2009), entrevistou-o para a edição portuguesa da revista Tintin. Havia uma certa aura de reparação histórica nesta conversa – O Enigma da Atlântida, para muitos a melhor aventura de Jacobs, fora a única que não ocupara a capa da prestigiada edição internacional da revista de banda desenhada.
       De feitio reservado, refugiado na sua propriedade em Lasne en Brabant a que chamara Bois des Pauvres [O Bosque dos Pobres], Jacobs não concedia muitas entrevistas – menos ainda para os representantes de um país sem grande tradição no género e de que conhecia apenas (por admissão própria) o extinto Cavaleiro Andante e o desenhador Fernando Bento, que aliás elogiou: «Ficava-se com a ideia de que conhecia o vestuário de outras eras do povo português.» O elogio não era uma mera cortesia: Jacobs começara a carreira na ópera, desenhando trajes e penteados das personagens de cada produção e conseguia reconhecer facilmente o esforço do trabalho de documentação histórica que isso exigia.
Como bom repórter, Granja torturou o responsável de Relações Públicas da revista Tintin, Jean Paul Vander Elst, e obteve o exclusivo. Antes, já pedira também a intermediação de Hergé, velho mestre de quem Jacobs fora assistente em Bruxelas. Hergé considerava Jacobs um misto entre Mortimer e o seu capitão Haddock. Numa formulação célebre, dirá mais tarde do amigo: «Jacobs é Mortimer voando em auxílio de Blake.»
Há uma certa aura quando Jacobs entra na sala onde Granja já o espera, «dando a impressão de estar numa sala de espectáculos. (…) É uma autêntica encenação teatral (não esquecer que o grande desenhador teve uma brilhante carreira como intérprete lírico)». Repórter minucioso, Granja regista o aparato da entrada cénica, «como se aguardássemos as três pancadas de Molière».

Parte 7 da entrevista, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)

A entrevista, partida em sete capítulos (publicados entre a série XI e XII da revista), é um jogo de xadrez. Granja elogia Jacobs e quer extrair os segredos criativos deste homem que chega a trabalhar 11 horas consecutivas e se deita com a roupa do dia; Jacobs contra-interroga, numa espécie de exame de aptidão daquele homem peculiar, de óculos de aros largos, proveniente do país com «um povo corajoso», «pequenos mosaicos de cores diferentes [azulejos]», mas pouco mais. A certo momento, num jogo de espelhos peculiar, é o belga quem faz perguntas sobre o estilo de banda desenhada mais comum em Portugal, as dificuldades de adaptação de enredos e peripécias culturais francófonas ou até as preferências de Granja sobre o processo criativo e a hierarquização de funções entre desenhador e guionista.
O Enigma da Atlântida aflora à conversa. O guião inicialmente previsto para a aventura incluía discos voadores, mas outro ilustrador com colaboração prevista para o mesmo número da revista já os integrara na sua narrativa e Jacobs, cavalheirescamente, cedeu. O belga interessou-se então pela Atlântida, revisitando o mito que, desde o século XVIII, sugere que o arquipélago açoriano seria o destino final desta civilização perdida. O seu esforço de documentação tornara-se icónico de uma nova era na banda desenhada, simbolizada no lema de Raymond LeBlanc, o editor da Tintin: «Instruir e distrair.»
«Oh, sabe lá, tive tanta dificuldade em reunir documentação para essa história», contou Jacobs a Vasco Granja. «Hoje, teria sido mais fácil.» Jacobs gabava-se de um processo documental único entre os seus pares e a história nos Açores não fugiu à regra. Lera os clássicos gregos sobre Atlântida, como descreveu pormenorizadamente a um correspondente em 5 de Janeiro de 1969 (carta publicada em Le Monde de Edgar P. Jacobs, Lombard, 1984, pg. 75-80). Estudara as traduções dos cronistas portugueses de quinhentos e seiscentos (graças à ajuda que Vasco Bensaúde concedera ao historiador francês Paul Le Cour) e conhecia bem a alegação de Damião de Góis de que, à data da descoberta da ilha do Corvo, os primeiros exploradores tinham encontrado uma enigmática estátua de um guerreiro de tronco nu, à maneira árabe, apontando para ocidente. Numa frase, Jacobs convenceu-se mesmo de que a Atlântida estaria sob os Açores.
       São conhecidas várias rábulas sobre a obsessão do belga com os mais ínfimos pormenores que reproduzia depois nas pranchas. Nos Açores, ficou sempre a dúvida sobre se Edgar Jacobs efectivamente visitou o arquipélago, pois os seus blocos de notas e memórias são omissos relativamente a essa questão, mas as pranchas que decorrem à superfície das Sete Cidades são particularmente minuciosas.
Granja questionava. Jacobs desviava a conversa: «Posso oferecer-lhe alguma coisa para beber? Não tenho vinho do Porto, mas talvez aceite um uísque.»
Mais à frente, volta-se ao tema. Infelizmente, sem certezas.
Interpretando literalmente a resposta final de Edgard Jacobs, fica a ideia de que a visita do desenhador a São Miguel foi posterior à publicação do álbum. «Eu não tinha conseguido obter a indispensável documentação acerca dos Açores quando andava a preparar O Enigma da Atlântida. A cratera das Furnas [Jacobs referia-se às Sete Cidades] deixou-me uma profunda impressão. Na água do lago, pode[m] observar-se duas cores diferentes: uma azul e outra verde, o que é bastante espantoso.» E foi tudo!
       A Claude Le Gallo, um dos seus amigos e biógrafos, Jacobs confidenciará mais tarde que, se pudesse, rescreveria a aventura da Atlântida, pois o recente conhecimento geológico e arqueológico  modificara as premissas da aventura em que acreditara. Nunca o fez.
Vasco Granja em imagem do Gato Alfarrabista
O homem que se gabava de ter sido o primeiro na Bélgica «a tentar fazer em banda desenhada qualquer coisa de sólido em vez de imaginar cenários fantasistas como no teatro», não chegou a esclarecer como se documentou para reproduzir fielmente a Lagoa Azul e a Lagoa Verde.
     Vários biógrafos e fãs de Jacobs não acreditam que o belga tenha de facto visitado os Açores no início da década de 1950 para se documentar, mas, em São Miguel, a sua figura ainda é lembrada. O vulcanólogo Victor Hugo Forjaz conta que, nas memórias da ilha micaelense, ainda há quem se lembre do belga «numa descida juliovérnica que se realizou na Povoação e terminou numa caverna sem saída», seguida de uma visita às Sete Cidades. A imaginação do desenhador e guionista faria o resto, estabelecendo ligações subterrâneas entre o território – aliás, como os seus biógrafos documentam, os subterrâneos e as inclementes mudanças meteorológicas são duas das marcas de água das aventuras de Blake e Mortimer.
       Victor Hugo Forjaz não duvida de que O Enigma da Atlântida fervilhou depois de uma visita real de Jacobs a São Miguel. «Terá então sido guiado pelo jornalista, director de uma loja de turismo e radialista Silva Junior (1912-1995)», acrescenta o cientista, que homenageia este mês a aventura de Blake e Mortimer que percorreu mundo e celebrizou as Sete Cidades.

Dedicatória de Edgard Jacobs a Vasco Granja, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)
Nunca mergulhei na Lagoa das Sete Cidades, objecto do excelente Vulcão das Sete Cidades – Um Guia, obra agora publicada nos Açores com coordenação de Victor Hugo Forjaz e do Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores e apoio da Câmara Municipal de Ponta Delgada.
Porém, ontem, em conversa amena com este amigo, sábio da vulcanologia, memória viva dos Açores e… testemunha bem humorada de erupções reais, fictícias e imaginadas-para-ministro-ver, veio à baila esta saga de Blake e Mortimer passada em São Miguel. Rimo-nos com a recordação do final da aventura de Jacobs. Na banda desenhada, Jacobs abre a Lagoa para deixar passar foguetões em direcção ao espaço, antes de a voltar a selar com a configuração de sempre, como se nada tivesse acontecido.

Na impossibilidade (para já) de comprovar que Edgard Jacobs visitou de facto os Açores antes de desenhar O Enigma da Atlântida, resta-me sugerir a leitura deste novo guia sobre um dos monumentos naturais mais espantosos de São Miguel. Com menos ficção e mais ciência, com menos atlantes e mais açorianos, é uma obra fascinante e há muito necessária.

Nota final: este artigo é devedor da sabedoria e partilha de informação do blogue Nerdenthal, que compilou uma valiosa lista de textos de Vasco Granja sobre banda desenhada, o amor da sua vida.

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